Casos de violência contra homossexuais crescem 46% em 2012; denúncias sobem 166%


Mulheres participam da 11ª caminhada de lésbicas e bissexuais de São Paulo na véspera da parada gay 2013

Casos de violência contra homossexuais crescem 46% em 2012; denúncias sobem 166%

Edgard Matsuki
Do UOL, em Brasília


Segundo Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil com dados referentes a 2012, divulgado nesta quinta-feira (27) pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH), os casos de violações (que inclui violência física, psicológica e discriminação) contra homossexuais no Brasil cresceram 46,6% no ano passado.
No ano de 2012, houve 9.982 casos de violações contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Em 2011, esse número foi de 6089 casos. Por dias foram registrados 27,3 casos de violações. 

VEJA A MATÉRIA COMPLETA AQUI: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/27/casos-de-violencia-contra-homossexuais-cresceram-46-em-2012.htm


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COMENTÁRIO DE DANIELA ANDRADE SOBRE ESSA MATÉRIA QUE NÃO FOI EXCLUSIVIDADE DA UOL, MAS FOI VEICULADA POR VÁRIOS VEÍCULOS, INCLUSIVE NA 'VOZ DO BRASIL' DESTA QUINTA-FEIRA, 27/06/2013. O BLOG FORA DO ARMÁRIO RECONHECE AS DEMANDAS DA COMUNIDADE TRANSEXUAL AQUI REVERBERADA POR DANIELA.

Daniela Andrade e o Deputado Jean Wyllys


Criticando a reportagem que saiu hoje no UOL, com título: "Casos de violência contra homossexuais crescem 46% em 2012; denúncias sobem 166%"

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/27/casos-de-violencia-contra-homossexuais-cresceram-46-em-2012.htm

Como sempre a mídia, como reflexo da sociedade, trata todas as pessoas dentro da sigla LGBT como se fôssemos todos homossexuais.

"Casos de violência contra homossexuais crescem 46% em 2012; denúncias sobem 166%"

E onde estão os casos de violência contra as pessoas trans*? Vamos lembrar que ser travesti e transexual não é ser gay, que historicamente o G da sigla LGBT diz respeito a pessoas gays não trans* (ou cis).

As pessoas trans* estão representadas dentro da sigla pela letra T e, aí estão por conta da identidade de gênero não legitimada pela sociedade, ao passo que as demais letras referem-se à identidades com orientação sexual não legitimadas socialmente.

De forma que ser trans* diz respeito à identidade de gênero, e uma pessoa trans* pode ter as mais diversas orientações sexuais. Encontraremos por exemplo, travestis que se relacionam afetivo-sexualmente com homens, mulheres, ambos, nenhum (...) pois ser travesti ou transexual nada nos diz a respeito da orientação sexual da pessoa.

Quando a reportagem diz que a violência é contra os homossexuais ela APAGA as identidades trans* e perpetua o velho estigma que diz que mulheres trans* não são mulheres, na verdade são homens gays querendo ser mulheres e que homens trans* não são homens, são mulheres lésbicas querendo ser homens. É uma enorme violência e esmagamento quanto ao gênero legítimo das pessoas trans*.

Não, a violência não se dá só com os homossexuais e, aqui é preciso lembrar que travestis e transexuais fazem parte do grupo mais agredido e com maior número de assassinatos dentro dessa sigla.

Invisibilizar as pessoas trans* é invisibilizar não só identidades legítimas, como as demandas dessa população que diferem em grande parte dos homossexuais.

É preciso lembrar também que transfobia não é a mesma coisa que homofobia, transfobia é o preconceito por conta da identidade/papel/expressão de gênero exercidos pelas pessoas trans*. Lembrando de agressões e violências transfóbicas a que gays cis não passam, poderíamos perguntar: gays são barrados ao tentarem usar o banheiro do gênero que reconhecem como seu? Gays são desrespeitados em relação ao nome que possuem na escola, nos equipamentos de saúde, na delegacia ou em tantos outros locais? Gays precisam pagar do próprio bolso para conseguirem se hormonizar nos raros centros de saúde que proporcionam o tratamento hormonal para as pessoas trans*? Gays precisam entrar na justiça para terem reconhecido o direito de modificarem todos seus documentos?

Enfim, há uma enorme pauta de agressões e violências institucionais e sociais que as pessoas trans* passam e os gays não. Isso se chama transfobia.

Quando reportagens como essa trazem para a sociedade apenas o protagonismo e visibilidade dos gays, continuam a perpetuar a negligência de todos com as pessoas trans*. Ainda que no corpo da reportagem, traga discretamente o fato de que as violências expostas na manchete como apenas contra homossexuais, também diz respeito às pessoas trans*, como se, realmente, fossemos outro tipo de homossexuais.

Uma frase do texto diz "Atualmente, Estados e municípios lançam programas para a prevenção da violência contra homossexuais." e onde estão as políticas públicas para inserir travestis e transexuais no mercado de trabalho? Para prevenir a violência diária que sofremos toda vez que precisamos apresentar nossos documentos? Somos nós que estamos em maior número nas ruas nos prostituindo e sendo agredidas ou assassinadas, mas nenhuma menção foi feita quanto a isso. Excluir as pessoas trans* do processo democrático não é agir com democracia.

A reportagem também fala da preocupação do Sistema Nacional de Enfrentamento à Violência contra Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais com o projeto da "cura gay", mas onde está a preocupação com o fato das identidades trans* serem patologizadas desde sempre? São as nossas identidades que fazem parte do CID e DSM. Nada foi dito a respeito, como quase nunca se diz.

As pessoas trans* precisam de inúmeros laudos para dar qualquer passo no sentido de garantir o mínimo de cidadania, somos nós as identidades vistas como doentes pelo consenso científico, sociedade e governo. No entanto, parece que isso não preocupa muita gente. Onde está o clamor pela aprovação da lei de identidade de gênero?

Sonho com um Brasil onde as pessoas trans* não sejam excluídas, nem invisibilizadas ou deslegitimadas em relação ao gênero que possuem, mas é um sonho utópico.

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