A ditadura gay e outras coisinhas do protesto - por Paulo Ghiraldelli Jr.


fonte da foto: Ideias Canhotas


A ditadura gay e outras coisinhas do protesto

Por Paulo Ghiraldelli Jr.

Às revoluções ou grandes reformas precede um rearranjo topológico semântico que, de certa forma, são a permissão para que tais coisas ocorram e talvez seu principal resultado. Estamos vivendo isso.O nosso Congresso votou rapidinho uma série de propostas que ficaria anos mofando, e o fez em um sentido alvissareiramente moderno. Todavia, eu estou longe de me achar satisfeito. Duvido que alguém esteja satisfeito, exceto os conservadores de carteirinha.

Quais foram os ganhos até agora?

Primeiro. A educação foi premiada, embora não se saiba realmente, em termos de dinheiro, com quanto. E isso não garante nada, pois a mentalidade dos governantes é de gastar em tudo no campo educacional, menos no que é importante, que é o salário do professor.

Segundo. Do ponto de vista do gasto criminoso do dinheiro público, foi aprovada a transformação da corrupção em “crime hediondo”. No entanto, do mesmo modo que se pode escapar de um crime, dependendo das circunstâncias, também é possível fugir do crime hediondo – dependendo das circunstâncias.

Terceiro. A PEC-37 caiu e, desse modo, o Judiciário continua com seus poderes. Mas isso não é propriamente um ganho para a ética política, apenas uma forma de deixar de perder.

Analisando cada ato do Congresso, é fácil ver que ele respondeu positivamente ao movimento de protesto, mas não deixou de fazer o que o próprio movimento disse que era a sua prática: jogou uma cortina de fumaça para nos confundir. Era esperado. Boa parte do protesto se fez na base de uma acusação simples e certeira: a dissimulação é o que os políticos e partidos tem de mais bem distribuído entre eles.

Paralelamente a isso, setores da população mais ligados às instituições tradicionais, em especial os sindicatos, estão programando greve e já anunciam um coro de críticas ao governo federal, e em alguns casos, aos governos estaduais. Tudo indica que tais sindicatos, a maioria em franco peleguismo, atrelados ao PT e ao PSDB, não estão falando sério. Eles querem apenas retomar o espaço perdido pelo protesto horizontalizante e antivanguardista. Não me surpreenderia se pegasse gente do governo federal feliz com a decisão dos sindicatos. Nos três níveis, federal, estadual e municipal, os políticos em cargos executivos passaram três semanas sem saber o que fazer, pois nunca imaginaram que o brasileiro poderia ir às ruas protestar sem lideranças, ou melhor, contra elas – todas elas. Dilma estava uma barata tonta, indo de Lula em Lula pegar açúcar. Haddad parecia um motorista bêbado na contramão da Rodovia Presidente Dutra. Alckmin e outros governadores oscilaram entre a repressão e o pedido de desculpas com cara de bunda. O governo ainda está desesperado. Implora a volta de velha política. Caso não fiquemos atentos, esses governos vão dar dinheiro para os sindicalistas voltarem a serem líderes, do mesmo modo que, não raro, alimenta certa imprensa oposicionista para que ela ataque suas bases, mobilizando a sua militância.

A revista Veja age assim, como que fornecendo gás para o jornalismo comprado pelo governo, o de Nassif e o de Amorim, hoje em dia os maiores pinóquios do cenário. A Veja não é ideologicamente de direita somente, ela é antes de tudo fora do tempo, não abandona a lógica da “guerra fria” de modo algum. Vive em um mundo que não existe e, não raro, atropela sua capacidade de jornalismo investigativo sério por conta de briga ideológica completamente alheia ao mundo atual. Agindo assim, ela cutuca a militância mais atrasada do PT, que usa frases imbecis como “a rede Globo manipula o povo” ou “tudo é culpa do neoliberalismo, da globalização e do imperialismo ianque”. Caso um dia a Veja pare de fazer esse serviço tolo, o governo federal, na mão do PT, a forçará a voltar a fazer, pagará para ela continuar na ladainha. É isso que ainda alimenta alguma militância não paga do PT. De resto, hoje, o PT é o PSDB e o PMDB, só possui militância paga. Se já era assim, agora, após os protestos, nunca mais será de outra forma. A juventude brasileira que protestou deixou claro seu anti-petismo e, enfim, seu completo desprezo pelos partidos políticos.

De tudo isso, no entanto, talvez ao menos em um caso seja possível dizer que haverá vitória de fato, objetiva, para as jornadas de protesto dessa “primavera feita em outono”, sem que se tenha de computar perdas e ganhos. Trata-se do “caso Feliciano”, em especial o projeto do deputado-pastor de recolocar o “homossexualismo” no catálogo das patologias, uma vez que psicólogos e similares estariam autorizados a propor ações terapêuticas capazes de fazer um homossexual deixar de ser homossexual – ele ficaria “curado”! Ora, os protestos fizeram até mesmo o PSDB, que se transformou em um partido conservador não só no plano da política social, mas também cultural e moralmente, se desvincular da figura de Feliciano, em especial nesse caso da “cura gay”. Ou seja, até mesmo os conservadores não querem saber de dar um passo nessa direção felicianesca. Até o casamento gay já anda solto por aí, no Brasil, então não faz sentido algum abraçar a carcomida ideia de que pessoas que gostam de outras do mesmo sexo sejam, por conta disso, doentes.

Desse modo, quanto à questão da homossexualidade, as coisas se deram como eu disse que elas se dariam: os conservadores não iriam se determinar a não importunar mais os gays e as lésbicas por conta de esclarecimento, de ciência, de leitura, mas simplesmente por decisão política. Que se aprenda esse caminho: também o aborto, a eutanásia, a programação de melhoria genética de descendentes e coisas desse tipo não virão ou deixarão de vir por qualquer ato de rápido esclarecimento ou “conscientização”, segundo um vetor iluminista. Não estou dizendo que o contínuo esclarecimento do cotidiano, que fazemos, não seja importante. O que afirmo é que mudanças ético-morais demandantes de alteração política e de criatividade no aparato legal ficará em banho-Maria e, dependendo do clima dos protestos, poderá ou não serem relegadas para um futuro distante. Quando vierem, ganharam decisão exclusivamente política. Não mataremos ou deixaremos de matar, não praticaremos eugenia ou nos negaremos a fazê-lo, etc., por qualquer razão que venha dos laboratórios. Não de modo imediato. Faremos o que temos de fazer por uma decisão política.

Assim, a soma de Feliciano com os protestou acabou gerando coisa boa. A expressão “ditadura gay” entrou definitivamente em baixa. Os que andaram comemorando a volta do politicamente incorreto, como se isso fosse, incondicionalmente, sinônimo de liberdade, venderam muito livro e soltaram muito panfleto, mas estão perdendo a guerra assim mesmo.

A “ditadura gay”, tão aclamada por gente como Feliciano, ruiu de vez. É bobagem ele apelar para esse termo. É ridículo, agora, que ainda se fale em politicamente correto ou incorreto para o caso. Quem usar a expressão “ditadura gay” estará falando do quê? Afinal, os protestos continham muita gente. A maioria desse pessoal, entre outras reivindicações, disse claramente que não queria mais os políticos e, dentre estes, figuras como Feliciano. Assim, a “ditadura gay”, uma invenção da direita, deixou de existir, até mesmo como invenção, porque o Brasil acordou um dia não mais se interessando em levar a sério gente capaz de dizer que iria “curar gay”. Virou piada isso. Após os protestos, virou piada da piada – piada derrotada. Avalio que vai demorar pouco tempo para que essa decisão política afete, aí sim, a ciência. Mais depressa do que podemos conjecturar agora, logo estaremos nos perguntando “como podemos acreditar que nascemos héteros ou que fulano de tal é hétero?”. Chegaremos a desconfiar do heterossexual como algo … anormal. Depois, chegaremos ao ponto de nos desinteressarmos da sexualidade como um elemento tão forte na determinação da identidade. Agora, nesse momento, o futuro no horizonte é esse.

Caso o ganho tenha sido só isso, exclusivamente isso, o que não é verdade, uma vez que o ganho real é a mudança subjetiva em relação à política, os movimentos de protesto já terão valido a pena. A topologia semântica está remontada. As portas e janelas para transformações maiores estão abertas.

© 2013 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ



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