Eu não sei ser hétero - por Rafael Amorim


Eu não sei ser hétero

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Eu não sei ser hétero, não sei mesmo. Sei lá, não consigo me adaptar.
Queria ser, talvez fosse uma vida legal, normal, ausente de qualquer preocupação mental e física. Seria o máximo sair com meninas, beijá-las, e até ficar excitado. Mas isso tudo não se resume ao sexo, não é? Que ideia louca de pregar a heterossexualidade como ato de procriação e perpetuação da espécie. Seria nos tratar como animais, como cobaias para superlotar um planeta já superlotado.

Diante de algumas citações que incitam o ódio que li durante a semana, fiquei realmente pensando se não seria melhor eu fazer um pouco mais de esforço e virar um heterossexual. Li sobre um pastor que diz que é pecado ser gay, sem contar no insulto que ele propagou sobre negros e católicos. Confesso, fiquei com muito medo. Me senti coagido com tal discurso. Será mesmo que Deus condena a prática do amor entre dois homens? Talvez não precise se tratar de amor, mas de dois homens estarem juntos. Ir contra isso é uma visão que me assusta e me deixa com medo de sair na rua. Ora, eu não quero ser chamado de demônio ou coisa pior na rua. Convenhamos que ninguém quer.

Eu quero levar uma vida normal, quase como uma vida de hétero. Eu não sou tão ruim assim. Tive boas notas no colégio, sempre ajudo a quem precisa, sou um filho direito, não me drogo, não dou dor de cabeça para os meus pais... Mas tenho esse defeito de fábrica. Fui produzido com algo diferente que me destacou. Nasci gay. Gosto de pensar dessa forma, é uma boa maneira de amenizar uma possível culpa por ser como sou. Meus genes devem ser iguais aos seus ou de qualquer hétero que passe por mim na rua, mas no fundo em devo ter algo de diferente dentro de mim. Cientifica, mental ou até espiritualmente.

Eu não penso em casar ou ter filhos, mas posso começar a partir de hoje se me prometerem que heterossexualidade é sinônimo de felicidade. Ai eu posso ficar mais tranquilo se me derem o atestado da felicidade de uma vida hétero. Posso passar a pensar em ter uma família, uma esposa, um filho... Mas se eu virar hétero e tiver tudo isso, ensinarei a eles que não se deve discriminar ninguém pelo seu defeito de fábrica. Não só por isso, mas pela sua cor, sexo, visão política, religiosa, filosófica e social. Quero ser um hétero do bem e ensinar ao meu filho que preconceito não leva a nada. Que se ele quiser acreditar em Deus, que acredite num Deus bom, e não no deus tirano que tentam me obrigar a conhecer. Porque será assim, meu filho vai acreditar se quiser, mas independente de qualquer crença em que ele se sinta bem, lhe ensinarei valores para com sua própria vida para que não falte com respeito a quem não pensa como ele. Será um filho que não terá medo de fazer as coisas de mulherzinha (e ele nunca ouvirá essa expressão da minha boca), que não se sentirá mal quando uma menina for melhor que ele em alguma atividade, saberá respeitar idosos e expor sua opinião de forma sábia. Contarei com minha esposa para essa missão quase impossível.




Eu não quero que meu filho entre numa igreja por se sentir bem e saia coagido com um discurso sobre ódio. Assim como não quero que ele se sinta bem sendo ateu mas menosprezando a cultura do candomblé, do catolicismo ou qualquer outra crença. Quero um filho são, salvo de qualquer preconceito. Um filho que caso se sinta atraído por meninos, entenda isso como orientação e não opção. Que veja como um presente e não um defeito de fábrica, como me foi imposto.


São essas as exigências que faço para uma vida hétero. E que tendo uma mulher, ela saiba me respeitar como marido, não sendo submissa, mas criando um diálogo sempre que se sentir insegura com alguma ação minha. Tendo um filho saudável e livre de falsos padrões, que não duvide que dois pais gays ou duas mães lésbicas sejam inferiores ou menos eficazes quanto eu e sua mãe na criação de uma criança. Se essa vida hétero me fizer mais feliz, eu aceito e assino onde for. Mas parte de mim não acredita tanto. Não que héteros não sejam felizes, conheço muitos que são e os admiro. Só não gosto de ver um discurso anti-homossexual das pessoas que parecem não enxergar as atrocidades que acontecem com famílias normais. Eu não quero voltar a ver casos de filha que mata os pais, ou de pais que jogam criancinhas da janela do prédio... Eu quero ligar a TV e me certificar de que o mundo está mudando. Que a vida hétero é tão feliz e construtiva quanto a gay. Sou contra crianças presenciarem brigas dos seus pais, e sou mais contra do abandono de mães que rejeitam seus filhos na lixeira mais próxima. 

Quando contei para os meus pais dessa minha condição de fábrica, o mundo caiu. Minha cabeça não estava preparada para ouvir tudo o que ouvi. Foi um choque, claro que foi. Mas depois de um tempo eu ouvi meu pai dizer que tudo bem se aquela era a minha opção, contanto que eu não fosse promíscuo. Sempre fico confuso com aquilo até hoje. O que ele, com seus cinquenta e poucos anos, deve entender por promiscuidade? Seria promiscuidade se eu fosse para uma boate e pegasse pelo menos cinco meninas? Acho que não, acho que seria coisa de macho. E se eu saísse com meninos diferentes a cada final de semana, isso seria? Tudo me faz crer que sim. Mas eu não o julgo, e nem posso. Ele é meu pai, não teve o excesso de informação que nós, mais jovens, temos hoje. Talvez ele só fique mesmo preocupado, coitado.

Eu acho que não sei ser hétero mesmo. Eu não sei tentar ser algo que não sou. Não fui ensinado assim. Parece que pra ser hétero você precisa hostilizar o outro, chamando-o de bichona, bichinha, veadinho, mariquinha, mulherzinha... Eu não me acostumo com isso. Não quero ser um hétero assim. Quero ser um hétero como os que convivem comigo, não como os estereótipos ambulantes que sou obrigado a presenciar nas ruas e nas mídias. Não quero ter uma visão sexual ao ver duas mulheres, não quero ficar excitado com isso. Quero imaginar que ali existe uma relação de cumplicidade e afeto. 

Pensando melhor, depois de todas essas questões, olhando por uma outra ótica, não preciso tentar me curar ou me enquadrar em um padrão estabelecido. Eu gosto do meu defeito, e tenho encarado-o como uma dádiva. Eu sou uma pessoa do bem, um cidadão que não precisa ser julgado se é gay, hétero, bissexual, transexual... Eu gosto de ser eu mesmo e gosto de acreditar que todas as pessoas precisam ser assim. Que todos ao meu redor feche os olhos do preconceito e abra os do respeito. Nós não nascemos com rótulos e de fato a única condição que nos é imposta quando viemos ao mundo é a de ser humano. A partir dai, a diferença está nos olhos de quem vê.





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COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO

Parabéns pela sinceridade e honestidade com que desabafou nesse texto, Rafael Amorim. Pode crer que muita gente já tentou aprender a ser hétero, mas só perdeu tempo. Eu mesmo fiquei 18 anos nessa escola, sem contar o tempo fora de igreja evangélica, quando já tinha preconceitos enfiados na minha tenra infância pela sociedade e família. Digo a todos e t doas que não vale a pena.

Fico feliz por saber que sua 'confissão' de impotência diante do desafio de alterar sua orientação sexual não esconde uma tristeza, mas revela um certo orgulho de ser você mesmo, do jeito que você é, ou seja, entre diversas outras virtudes, você também tem essa - a de ser gay! ;) E mais: revela a igualdade de ambas as orientações em termos de naturalidade. É da natureza. Tantos os bichos não-humanos como o bicho-homem demonstram isso. 

Para quem já sabe que não vale a pena se submeter a essas loucuras pregadas em nome da heteronormatividade, assim como para aqueles que ainda nutrem dúvidas, sugiro a leitura de Em Busca de Mim Mesmo. Deem uma olhada:




Leia EM BUSCA DE MIM MESMO.
Leitura refrescante em tempos de fundamentalismo religioso e embates heroicos em prol das liberdades civis. Veja como AQUI.

Comentários

  1. Belíssimo texto. Só o que eu tenho a dizer, sem mais palavras.

    Forte abraço.

    (P.S.: andei relendo seu livro esses dias...)

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    1. Obrigado, amigão. Fico feliz em saber.

      Um abraço carinhoso,
      Viula

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