Carnaval 2013 em Fortaleza

Aguardando o embarque no aeroporto do Galeão para Fortaleza com Emanuel


Dia 10/02/2013
Manhã

Este será mais um carnaval tranquilo na minha vida. Esse ano estamos viajando para Fortaleza, onde ficaremos hospedados próximo à praia, mas visitaremos os familiares do Emanuel e veremos alguns amigos. 

Apesar de nosso objetivo ser puramente social e familiar, haverá tempo para comer uns petiscos, tomar umas cervejas, curtir uma praia, etc. Atualizarei esse post com novas informações e fotos ao longo do feriado.

Desejo a todos e todas um excelente carnaval, com ou sem samba, no bloco ou na rede, mas sempre com duas regrinhas simples na cabeça:

1. Se beber, não dirija.
2. Faça sexo seguro. Camisinha sempre!

De resto, curta seu feriado ao máximo. ;)

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Dia 10/02/2013
Tarde e Noite

Almoçamos com a mãe do Emanuel, suas irmãs, cunhado e sobrinhos e nosso amigo Cosme. Foi uma delícia o bate-papo e o cardápio à base de peixe e vários acompanhamentos. Não faltou a cervejinha gelada para aliviar o calor de Fortaleza.


Emanuel, Dna. Antônia (mae) e eu

Depois disso, voltamos para o hotel, tomamos um banho para refazermos as forças e nos encontramos com o Cosme novamente para curtir um pouquinho da noite fortalezense. 


Emanuel, Cosme e eu


A capital do Ceará não tem tradição de blocos de rua ou coisa assim, mas a prefeitura espalha palcos para shows pela cidade. Um deles foi na Praça do Ferreira, onde Cosme nos levou para assistir a banda Verônica Decide Morrer. Nada a ver com samba, forró, frevo, maracatu ou coisa assim - somente rock, e justamente do tipo que eu adoro!


Henrique Castro (produtor) e Verónica Valenttino (vocalista)  da Banda Verônica Decide Morrer


Emanuel perguntou a Verónica de longe - porque o palco tinha gradil e segurança - se podíamos conversar com ela depois do show. Ela topou. Conversamos com o produtor Henrique Castro, que autorizou uma entrevista no camarim. Não vou adiantar mais nada. Basta assistir o vídeo da entrevista logo abaixo que você vai entender por que eu considerei aquela noite a melhor de todas as que eu já tive em Fortaleza.

Veja e compartilhe. Verónica merece. Henrique, idem. ;)

Só um detalhe: Eu pensava que o nome fosse escrito Verônica Vallentino, mas não. É Verónica Valenttino

Pra que ser igual a todo mundo, afinal? hehehehe



CONFIRA: 

http://www.facebook.com/bandaveronica.decidemorrer


Fonte da foto: Perfil da banda no Facebook


Dia 11/02/13

Tomamos café cedo, fomos à Praia de Iracema, mas eu não curto muito sol no lombo. Como não há aluguel de barracas nessa praia, decidi voltar mais cedo para o hotel e terminar o vídeo da Verónica. Consegui, mas o upload para o Youtube está levando uma eternidade aqui. Que saudade da minha internet em casa! 

Na hora do almoço, fomos para a casa da mãe do Emanuel e almoçamos com ela novamente. Passamos uma tarde excelente. Depois voltamos para a beira-mar e encontramos com nosso amigo Cosme e um novo amigo que ele nos apresentou: Anderson. 

Tivemos momentos excelentes de bate-papo no Bar do Joca e depois passamos um tempinho junto a um dos palcos de show da prefeitura. A seguir, fomos jantar e voltamos para o hotel.

Foi um dia tranquilo e delicioso. 

DIA 12/02/2103

Depois de mais um café da manhã maravilhoso, fomos encontrar  Cosme, nosso anfitrião. Nosso destino foi a Praia do Futuro. Ela é pontilhada por barracas como choupanas. Tomamos nossos belos drink (lembram?) e comemos muqueca de arraia com um acompanhamento de arroz, maionese, batata frita e farofa - tudo simples, mas super gostosinho.

O melhor de tudo porém, foi ter conhecido Paula. Assim que chegamos, percebemos que Paula não era uma mulher comum. Ela tinha alguns traços masculinos - o que me levou a pressupor que ela fosse transexual em processo de feminização. Perguntei logo o nome, a fim de que ela mesma me indicasse como gostaria de ser tratada. Ela me disse que se chamava Paula. Imediatamente, comecei a trata-la no feminino, como deve-se fazer em qualquer circunstância. É sempre a pessoa que me diz quem ela própria é. Esse é o princípio da auto-determinação. ;)

Acontece que Paula não é transexual. Paula não é uma menina num corpo de menino, como geralmente dizemos para que pessoas simples compreendam a transexualidade com mais facilidade. Paula me surpreendeu com uma confissão em tom absolutamente tranquilo: "Sou hermafrodita". Apesar desse nome conjugar dois deliciosos deuses gregos - Hermes e Afrodite - e ela provavelmente utiliza-lo para facilitar a compreensão popular quando comenta o assunto, eu fui logo mostrando que tinha algum conhecimento de causa:

- Paula, que privilégio para mim poder conhecer uma pessoa intersexo em pleno passeio em Fortaleza!

Ela me olhou surpresa e disse:

- Você acha?

Eu respondi:

- Claro. Eu mantenho um blog voltado para as questões LGBTI e que tudo que se refere ao tema me interessa. 

Ela ficou interessada e eu acrescentei que adoraria conversar melhor com ela sobre isso, inclusive entrevista-la. Porém, Paula não parava - sempre atendendo a um monte de gente. Mesmo assim, ela se sentava um minuto ou dois e trocava mais uma palavrinha comigo entre um pedido e outro. Ela só não topou gravar a entrevista em vídeo por uma razão absolutamente compreensível para a maior parte das mulheres: produção. Ela estava suada, com o uniforme e boné da barraca, sem maquiagem. Final da história: Nada de fotos ou vídeos. Compreendi perfeitamente e fiquei super satisfeito com tudo o que conversamos e com a permissão dela para que eu transcrevesse aqui alguns detalhes da nossa conversa. 

Veja abaixo:


COSME, NOSSO AMIGO, E NÓS


Nome: Paula (prefiro ocultar o sobrenome dela)

Ocupação atual: garçonete

Estado civil: solteira

Gênero: Feminino

Sexo: Intersexo

Breve Histórico: 

Paula não foi criada pela mãe biológica, passando aos cuidados de uma outra senhora. Por fim, foi uma babá que a adotou como filha. É a essa senhora que Paula se refere como mãe. Infelizmente, por desconhecimento e (des)orientação dos médios, a mãe encaminhou Paula para operações e tratamentos que lhe dessem uma configuração totalmente masculina. Só mais tarde, um namorado lhe disse que ela, na verdade, era uma mulher. Ela procurou uma médica que também constatou e informou a Paula que esta possui órgãos internos femininos. O namorado preocupava-se que ela pudesse engravidar por qualquer descuido deles, pois apesar da definição pelo masculino, ela era capaz de engravidar, uma vez que um canal para a menstruação foi mantido até que outras etapas do tratamento eliminassem os órgãos femininos. 

Acontece que Paula não se sentia realmente homem, apesar de ter um pênis e tratamento hormonal para masculinização. Ela tinha órgãos internos de mulher, podia menstruar. Podia até engravidar. Então, ela decidiu desistir do tratamento de masculinização e deixar a natureza seguir seu curso. Logo nasceram peitos, a voz começou a mudar para feminina, as funções sexuais masculinas "ficaram totalmente amortecidas" (como ela mesma diz) e Paula retomou sua feminilidade, porém com alguns traços masculinos deixados pelo longo período de masculinização. Com o tempo, esses traços provavelmente desaparecerão ou serão minimizados.

Agora Paula é acompanhada por uma ginecologista e uma série de outros médicos, um psicólogo e um psiquiatra. Porém, ela não tem nada de mal-resolvida. Pelo contrário, coloca-se no mundo como mulher que é, e vive em paz com as pessoas ao seu redor. Atualmente, mora sozinha. O romance com o homem que a ajudou a se reencontrar terminou por decisão dela, mas ele foi muito gentil, apesar do final do relacionamento, colaborando para que ela conseguisse estabelecer residência sozinha. 

A mãe de Paula reconheceu que errou ao tentar masculinizar a filha, optando por um dos sexos de nascença, e passou a apoia-la integralmente no redirecionamento de seu gênero.

Conversei com Paula sobre isso também. Disse a ela que se ela se entende como mulher, fez bem em caminhar na direção de uma definição pelo feminino, uma vez que esse gênero é o que melhor traduz a si mesma - segundo declarações dela própria. Porém, nenhuma pessoa intersexual deveria ser submetida a qualquer tipo de 'adequação' contra sua vontade. Uma pessoa pode ser intersexo sem ter que fazer qualquer escolha por um dos sexos anatômicos ou por um dos papéis de gênero. Pode inclusive manter os dois sexos e adotar um papel de gênero só ou simplesmente vivenciar uma androginia na forma como se coloca para a sociedade, sem que esta possa manifestar-se contra isso de modo algum.

Ela me contou sobre um parente que lhe disse uma vez: 

- Mas tu não passou por todo um processo para ser homem? Eu te via como homem. Agora, tu me diz que aquilo tudo foi um erro...  Como é que eu devo te ver agora? O que é que tu é, afinal de contas?

Ela simplesmente disse: Como mulher, ora!

Foi aí que eu olhei bem nos olhos dela e disse:

- Paula, talvez no seu lugar eu tivesse respondido algo tipo: Se eu sou macho, fêmea ou os dois, isso não faz a menor diferença para você, cara, porque você não vai dar para mim e nem vai me comer de qualquer maneira!

Ela deu um risada e disse: 

- Nunca tinha pensado nisso.

Eu respondi:

- Não precisa dizer isso, não. Só sugeri essa resposta para mostrar como é ridícula a cobrança, especialmente nesse tom. Você é tão simpática e está tão acima disso tudo que nem precisa dar essa resposta. 

Ela disse:

- Sergio, que bom te conhecer. Nossa conversa me fez muito bem.

Eu respondi:

- Você não imagina o quanto sua vida e relato enriqueceram minha vida hoje.

Trocamos contatos e nos despedimos. Fui pagar a conta direto no caixa. E, lógico, fiz um elogio bem caprichado à Paula e a seu atendimento. A dona do estabelecimento ficou radiante. 

Nota 10 para a Paula! ;)

À noite, jantamos com uma das irmãs e dos cunhados do Emanuel. Aline e Rogério nos receberam muito bem. Fechamos a noite com um jantar delicioso que contrastava com minha amarga derrota no tabuleiro de xadrez para Rogério, que é um excelente estrategista. Depois do jantar, Maria Eduarda, sobrinha do Emanuel quis jogar uma partida comigo. Dessa vez, ganhei. Porém, com o professor que ela tem, rapidinho vai ficar difícil ganhar dela. ;)

DIA 13/02/13

Agora é hora de voltar. Escrevo esse encerramento antes de fazer o check-out do hotel. Aliás, o Ibis aqui de Fortaleza está de parabéns! Conforto, segurança, silêncio, excelente atendimento.

Que o carnaval de 2014 venha na mesma frequência que esse. Se vier, estaremos no lucro. ;)

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Comentários

  1. Sérgio,
    Muito bom seu relato a Paula muito provavelmente uma condição chamada de Hiperplasia Adrenal Congênita na qual uma criança com cromossomos XX produz muita testosterona e ocorre a virilização na fase uterina. Passe para ela o contato dos grupos de apoio (www.aisdsd.com e www.aissg.com) ambos são estrangeiros e estão em inglês, porém ela pode abrir em português pelo google e através deles ela consegue contato com outros adultos afetados aqui no Brasil, abraço.

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  2. Obrigado, Anjo. Valeu pela dica.

    Um grande abraço,
    Sergio Viula

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