Porque o culto ao corpo está exagerado atualmente? - Artigo de Paulo Sammarco


Porque o culto ao corpo está exagerado atualmente? 



O culto ao corpo tem tido o objetivo de corporificar “identidades” pautadas em modelos inalcançáveis, onde cada um se torna individualmente responsável pelo corpo que tem. Quanto mais considerado apropriado, maior atribuída será sua capacidade de autodisciplina e cuidado.

A disciplina corporal cria corpos padronizados e subjetividades controladas. Na atualidade, quem não tem um corpo jovem, bronzeado, malhado, magro, lipoaspirado e siliconado, é visto como alguém que fracassou inclusive em outras dimensões da vida, como finanças, profissão, família, vida sentimental, amizades, dentre outras.

Políticas preventivas de saúde em nome do bem estar e da beleza são desenvolvidas e disseminadas em alta escala, gerando altos lucros. A busca obsessiva pela estética perfeita, que envolve investimento financeiro e disciplina é apresentada ao público como sinônimo de amor próprio e aumento da auto-estima. Porém, a proliferação de produtos de beleza se tornou um mercado altamente promissor e lucrativo. O sujeito é estimulado pela propaganda a sentir prazer ao cuidar do próprio corpo. Pois à medida que isso é feito, ele é impelido a acreditar que qualidades espirituais da sua alma estão sendo automaticamente desenvolvidas e aprimoradas.

O mercado que explora o corpo associa valores subjetivos a valores estéticos quando desenvolve e dissemina a seguinte mensagem: a beleza externa aparente em músculos bem torneados e definidos, nada mais é do que o reflexo direto da existência de uma beleza interna correspondente. Influenciados por Platão, tendemos a pensar que se é considerado belo, é automaticamente bom. Entretanto, sabemos que muitas vezes, as aparências são apenas aparências. A associação feita pela propaganda entre o cuidado com o corpo e a sexualidade humana, provoca nas pessoas excesso de auto-erotismo, narcisismo, individualismo, competitividade, sensualidade e hedonismo.

A energia sexual, quando estimulada, torna-se muito poderosa e principalmente rentável financeiramente. Tal estratégia publicitária movimenta cifras bilionárias, especialmente na indústria do sexo e suas ramificações indiretas. Além disso, o corpo bem cuidado vai receber atenção, elogios e aprovação do outro que está sempre examinado e avaliando se ele se enquadra ou não nas normas impostas.

As ciências médicas associam a obesidade à preguiça, lentidão, acomodação, falta de saúde, baixa agilidade, pequena produtividade, falta de cuidado, desleixo, dificuldade de adaptação, falta de flexibilidade, predisposição à outras doenças fatais como derrame e enfarte, exigência de cuidados especiais adaptados, problemas emocionais e falta de beleza estética. As indústrias relacionadas ao emagrecimento, principalmente as que pertencem ao ramo da saúde e moda, movimentam cifras bilionárias no mundo inteiro em nome da “saúde e estética física ideal”.


Bibliografia Consultada:


MANSANO, Sonia Vargas Sociedade de controle e linhas de subjetivação. São Paulo: Tese de doutorado em Psicologia Clínica. PUC - SP, 2007



SANT’ANNA, Denise Bernuzzi Corpos de passagem. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 2001

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