Parlamento da Rússia aprova lei contra 'propaganda homossexual' - Comentário de Sergio Viula

Militantes LGBT e simpatizantes são detidos pela polícia ao se manifestarem na Rússia por causa da lei que quer torna-los invisíveis e seu amor e cultura ilegais.





Parlamento da Rússia aprova lei contra 'propaganda homossexual'
25/01/2013 

O Parlamento da Rússia aprovou nesta sexta-feira, em primeira leitura, o projeto de lei que proíbe a chamada "propaganda da homossexualidade", que limita atos públicos e manifestações dos gays.

A medida faz parte de uma série de leis criadas pelo governo do presidente Vladimir Putin diminuindo os direitos dos homossexuais na Rússia, um dos países mais preconceituosos em relação à orientação sexual da Europa.

A proposta foi aprovada com 388 votos a favor, um contra e uma abstenção. O projeto de lei ainda passará pela Câmara alta do Parlamento antes de ser enviado à sanção de Putin.
Caso aprovada, permitirá a cobrança de multas de até 50 mil rublos (R$ 3.379) por manifestações, atos de campanha e ativismo pelo fim da discriminação de homossexuais.

Durante o debate no Parlamento, o deputado do governista Rússia Unida Serguei Dorofeyev disse que era preciso proteger crianças e adolescentes do que chamou de "consequências da homossexualidade".

A deputada Elena Mizulina, do Rússia Justa, considerou que a exposição das crianças demonstrações afetivas com pessoas do mesmo sexo "limitam o direito dos menores a se desenvolverem livremente".

Os homossexuais sofrem forte discriminação na Rússia, um dos países mais homofóbicos da Europa. Até 1993, ter relações com pessoas do mesmo sexo era crime e até 1999 era considerado uma doença mental.

PROTESTOS

Enquanto acontecia a sessão no Parlamento, ativistas gays e cristãos ortodoxos entraram em confronto pela segunda vez nesta semana. O estopim das agressões foi o beijo dado por suas mulheres na porta da casa legislativa.

Em seguida, os simpatizantes da lei começaram a jogar ovos, tinta, e tentaram atacar o grupo, mas foram impedidos pela presença policial. Os agentes prenderam os manifestantes mais exaltados e os militantes foram dispersados.

A Igreja Ortodoxa Russa pediu para que a nova lei seja estendida por toda a Rússia, ela que já vigora em outras cidades, como São Petesburgo, a segunda maior do país.

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COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO



A Igreja Ortodoxa Russa tem cerca de 28.000 paróquias, a maioria na Rússia, Ucrânia e Bielorússia, totalizando 135 milhões de adeptos ao redor do mundo. O chefe da Igreja Ortodoxa Russa é o patriarca de Moscou. Ele, porém, não tem plenos poderes sobre questões de fé - o que é tratado por um Sínodo. Se as questões forem fundamentais, elas precisam ser tratadas por um Concílio Ecumênico de todas as Igrejas Ortodoxas.



A Igreja Ortodoxa surge a partir de um cisma entre as Igrejas Cristãs em 1054. Uma das facções ficou sob a autoridade do papa (Igreja Católica Apostólica Romana) e a outra permaneceu fiel ao Patriarca de Constantinopla, constituindo a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa subdividida em pelo menos 14 Igreja Ortodoxas Autocéfalas - Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém (todas elas constituem patriarcados); dez Igrejas Ortodoxas que surgiram ao longo do tempo: Rússia, Sérvia, Romênia, Bulgária, Geórgia (estas também são consideradas patriarcados), Chipre, Grécia, Albânia e República Tcheco-Eslováquia (estas últimas são lideradas por um arcebispo ou por um Metropolita).

Na Igreja Ortodoxa somente bispos são obrigados a manter o celibato. Os padres são liberados para o matrimônio, desde que este se dê antes da sua ordenação.

Historicamente, a Igreja Ortodoxa Russa abençoava o Czar, derrubado pela Revolução de 1917 com a assunção do Partido Bolchevique, de Vladimir Lênin.

Durante o governo de Stalin, a Igreja Ortodoxa Russa enfrentou um período de grandes restrições por ser considerada perigosa para a estabilidade do socialismo soviético. Porém, quando os alemães começaram a ameaçar o sistema soviético, Stalin concedeu mais liberdade à Igreja e seu Patriarcado objetivando cooperação para que o povo defendesse o sistema.

Com o esfacelamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a Igreja Ortodoxa retomou seu poder em relação à formação de opinião pública. Isso tem gerado uma cooperação perigosa entre o governo e a igreja.

Atualmente, Vladimir Putin - presidente da Rússa - tem recebido forte apoio do clero e, como retribuição, tem atendido reivindicações da igreja, como no caso da restrição aos direitos dos cidadãos LGBT sob o pretexto de impedir a "propaganda gay" (sic). Os argumentos usados na esfera pública não são razões públicas de fato, mas doutrina religiosa disfarçada de defesa do que muitos consideram "bons costumes" ou "defesa da família" ou "proteção à criança e ao adolescente".

Ao longo de sua história, a Rússia criou uma ordem baseada em direitos políticos e econômicos iguais para mulheres e homens na esfera pública. Essas políticas, porém foram essencialmente motivadas por necessidades econômicas do estado e, assim, fizeram pouco para transformar normas que relegam as mulheres a cuidadoras do lar. Outras desigualdades resultaram da construção social do ideal de sociedade soviético baseado no modelo de família heterossexual, que marginalizou as minorias sexuais.

Mães solteiras, por exemplo, sofrem terrível discriminação, inclusive no sistema de saúde. Isso tem elevado os índices de abandono de crianças na Rússia. Além disso, o combate à AIDS também sofre deficiências terríveis por causa do preconceito moralista. A assistência a mães com AIDS e seus filhos portadores do HIV são um desafio a ser superado. Imaginem em que pé fica o combate à AIDS entre a minorias sexuais, então.

Para tornar-se um país socialmente desenvolvido, a Rússia terá que rever suas posturas moralistas, baseadas numa heteronormatividade danosa para todos, porém chancelada por conservadores e fundamentalistas religiosos, dentre os quais a Igreja Ortodoxa Russa desempenha um papel protagonista.

Além disso, o povo russo terá que se acostumar à liberdade e desenvolver uma democracia genuína antes que consigam avançar na direção de leis que realmente valorizem o indivíduo e garantam seus direitos fundamentais.

No Brasil a Igreja Ortodoxa chegou com imigrantes árabes. Sua primeira instituição foi edificada em São Paulo, no ano de 1904. A imponente Catedral Ortodoxa foi aberta ao público em 1954, no auge da celebração do IV Centenário da metrópole.

Madonna defendeu a comunidade gay russa
e foi processada pelo governo russo.
Veja o discurso legendado abaixo.

REPORTAGEM PORTUGUESA SOBRE ESSA LEI INFAME:

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