O que acontece que não acontece? - artigo de Pedro Sammarco


O que acontece que não acontece?
Artigo de Paulo Sammarco



Em geral, o ser humano busca o prazer e evita o desprazer. Podemos perceber isso facilmente em nossas vidas, não é mesmo? Uma sociedade que estimula a competição, o narcisismo e o individualismo favorece a solidão e hostilidade entre as pessoas. Estamos cada vez mais pensando em nosso próprio sucesso e prazer. O que importa é que cheguemos lá. Mas o que adianta chegar lá, olhar ao redor e ver que estamos absolutamente sozinhos? Outro fator que contribui para tanta solidão é o instantâneo e o descartável. Eles são aspectos próprios da sociedade atual que é imediatista, capitalista e globalizada. Vivemos de maneira fragmentada e utilitária. O volume de informações é muito alto. Seu fluxo é rápido. É difícil processar tantos estímulos ao mesmo tempo.

Da mesma forma que tratamos os bens que consumimos, tratamos as pessoas com as quais nos relacionamos. Tempo é dinheiro. Não há tempo de construir. Temos que comprar tudo pronto e consumir imediatamente. Conhecemos alguém e logo esperamos que essa pessoa também esteja pronta para “consumirmos”. Afinal, temos que aproveitar ao máximo. O prazer deve ser extremo. O êxtase deve aplacar o estresse diário de nossas vidas que seguem um estilo absolutamente voltado para produção e o consumo. Somos tão consumidos por isso que não há tempo para curtir o que consideramos realmente importante. Até para nos divertirmos, há hora marcada, roteiro, controle, estresse, etc.

Quando conhecemos alguém, esperamos que tudo já esteja organizado de maneira prática, para que apenas desfrutemos, assim como em um pacote turístico. Porém, volto a dizer que as relações ainda seguem outro tipo de lógica que não combina com o mundo capitalista globalizado. Exige tempo, conhecimento e construção. Ainda esperamos que essa pessoa irá se encaixar perfeitamente com aquilo que desejamos. Esperamos que ela seja uma fonte de êxtase e felicidade constantes.

Não temos absoluta certeza de como surgimos aqui nesse mundo, porém, temos que dar sentido para tudo o que existe. Muito do que achamos que sabemos, não passa de especulações. Poucas certezas de fato. Até que ponto os conceitos e teorias que acreditamos são eternas, imutáveis e universais? Será que elas não estão a serviço de dispositivos de controle? Necessitamos de segurança e estabilidade. Precisamos de um amparo, mesmo que teórico, nos assegurando como se configura e funciona a realidade ao nosso redor. Porém, tudo é desprovido de sentido. O que nos permeia é o vazio de sentido. As rochas e as plantas são quase ausentes de mundo. Os animais são pobres de mundo. O homem é formador de mundo.  

Criamos as diversas formas de relações e organizações sociais nos diferentes locais e tempos históricos. Acreditamos que eles sempre existiram. Esquecemos que fomos nós mesmos que as convencionamos da forma que as convencionamos. Elas nos servem como uma tábua de salvação para o mar de mistério e incertezas que nos rodeia. Achamos que tudo é real. Então vivemos como se fossemos programados para concretizar tais convenções. Tentamos encaixar os ideais com a nossa vida.

Perdemos a naturalidade do que acontece, em nome de protocolos que nos darão a garantia da certeza, de um conceito construído de felicidade. Não sabemos mais deixar fluir naturalmente. Estamos sempre sendo controlados ou controlando. Precisamos desses construtos teóricos que nos dizem como tudo deve ser em nossas vidas. Como é difícil deixar simplesmente a vida acontecer, sem ansiedades e controle. Mesmo com tanto planejamento estruturado, o que nos angustia é que não temos garantia que os nossos ideais se concretizarão.   

Comentários