Machismo, um híbrido de violência e ignorância




Machismo, um híbrido de violência e ignorância

Publicado pela primeira vez quando este blog ainda estava na UOL.
Por Sergio Viula



Que o machismo se baseia em e promove mais violência já é conhecido historicamente. Mais recentemente, essa mentalidade reduzida e redutora se apresentou claramente no comportamento dos criminosos de classe média que espancaram uma empregada doméstica na Barra da Tijuca (Rio de Janeiro). Eles se especializaram em bater em mulheres. Faziam isso por "esporte". Entretanto, a violência contra a mulher, que ocorre no lar, é tão revoltante e humilhante quanto aquela sofrida por aquela pobre mulher, com um diferencial inquietante: fica no anonimato na maioria das vezes e ocorre diariamente.


Além da revolta que eu senti quando tomei conhecimento do caso pela TV, fiquei espantado com a ignorância e o preconceito que a justificativa esfarrapada deles revelava: "Pensávamos que fosse uma prostituta."
Como é que gente de classe média, cursando universidade, pode dizer uma imbecilidade dessas? Pensar que o fato de uma mulher ser prostituta lhes dá o direito de agredir, espancar e/ou matar? E o pior é que eles disseram isso provavelmente pensando qu a sociedade acolheria a explicação. Algo como: "Ah, sim, vocês pensaram que fosse uma prostituta?! Então, tudo bem... Foi só um engano." Será que a gente tem cara de babaca ou são eles mesmos que são burros?



Infelizmente, isso é comum em machistas agressores de mulheres tanto quanto em machistas agressores de homossexuais, mais conhecidos como homofóbicos. Esse tipo de violência, porém, é a ponta de um iceberg cuja estrutura fica quase totalmente oculta em meio à rotina de uma sociedade que se entrega à naturalização de uma dominação silenciosa, mas cruel.


A dominação masculina encontra reunidas todas as condições para seu pleno exercício. A primazia universalmente concedida aos homens é claramente percebida nas estruturas, baseadas em uma divisão sexual do trabalho, que confere aos homens a melhor parte. Os próprios hábitos sociais moldados por tais condições acabam funcionando como matrizes das percepções, dos pensamentos e das ações de todos os membros da sociedade. As mulheres, por sua vez, não conseguem escapar totalmente desses esquemas de pensamento que são produtos da incorporação dessas relações de poder e que se expressam em seu comportamento passivo e submisso - não natural, mas condicionado por todo esse esquema social.


Nesse aspecto é perigosíssimo o papel da religião na sociedade, especialmente o cristianismo. Não preciso inventar. Caso alguém duvide do que estou dizendo, vou citar algumas "pérolas" machistas que a Bíblia, sem o menor pudor, apresenta contra as mulheres. Infelizmente, elas mesmas nem percebem a armadilha e acabam sendo a maioria dentre os que lotam os templos e alimentam esse sistema opressor. A Bíblia perpetua a divisão sexual (e iníqua) da sociedade. Veja você mesmo:


1. O mito do início do mundo. Adão culpa a mulher: "A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi." (Gênesis 3:12) A mulher é responsabilizada por todos os males do mundo.

2. O homem se sente no direito de dominá-la, porque Deus mesmo disse: "Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará." (Gênesis 3:16 - grifo meu) Aqui o machismo e o patriarcado (o governo dos homens) inventa sua auto-justificativa áurea.

3. Um dos provérbios mais usados nas igrejas para falar da mulher perfeita é o da mulher virtuosa (Provérbios 31:10-31). Mas o seu conteúdo é todo de subserviência ao marido, trabalho doméstico e atendimento às necessidades dos filhos. É a popularmente conhecida "Amélia, a mulher de verdade". É a "burra de carga".

4. Quando Ló ofereceu suas filhas virgens para favores sexuais aos homens de Sodoma, ele não sofreu nenhuma punição. Sua mulher, porém, apenas pelo fato de ter olhado para trás quando saía da cidade, virou estátua de sal. Mais um mito que coloca as mulheres abaixo de qualquer nível de dignidade. Sorte das filhas de Ló que os homens não as quiseram. (Gênesis 19:6-8; 25,26)

5. O desprezo pela relação amorosa, como se a mulher fosse coisa impura é nítido nas palavra do apóstolo Paulo - o mais proeminente dos apóstolos: "Quanto ao que me escrevestes, é bom que o homem não toque em mulher; mas por causa da impureza, cada um tenha sua própria esposa." (I Coríntios 7:1,2). A esposa é apenas um objeto destinado ao uso do homem para que ele não se entregue à prostituição.

6. Veja a hierarquia da dominação explicitamente defendida por Paulo. Ele diz que Deus é o cabeça de Cristo, Cristo é o cabeça do homem, o homem é o cabeça da mulher. (Conferir I Coríntios 11:3)  e a mulher... sifu!

7. Outra pérola paulina: "As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido como ao Senhor, porque o marido é o cabeça da mulher..." (Efésios 5:22,23)

8. Paulo instrui Timóteo, seu mais fiel discípulo, dizendo: "A mulher aprenda em silêncio, com toda submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio." (I Timóteo 2:11,12) E, logo em seguida, vem o mito do Éden para justificar (I Timóteo 2:11,12)

9. Mas Pedro também não perde tempo: "Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido..." (I Pedro 3:1)

10. Quando João quer representar o sistema pervertido desse mundo (na visão cristã, diga-se de passagem), ele utiliza a figura de uma mulher montada numa besta, ou seja, num animal. Ele associa essa mulher à prostituição, à blasfêmia, às abominações, à morte dos santos cristãos, ao anticristo, etc. (Conferir Apocalipse 17:1-18)


Não é de admirar que o machismo tenha sido alimentado por tantos anos com conteúdos religiosos, além de outros. Mulher, dizem os pregadores baseados na Bíblia, é ajudadora do homem. Ela existe para servi-lo. Ora, a prostituta é simplesmente aquela mulher que leva essa submissão servil às últimas consequências, colocando-se diante de um homem para atender aos seus caprichos mais excêntricos. E é por isso que esses criminosos que agrediram a empregada doméstica se sentiam no direito de espancar prostitutas - antes de mais nada, mulheres.


Por isso, toda a sociedade (homens inteligentes e livres das amarras do machismo, e mulheres inteligentes e autônomas) deve exigir:

a) Rigor nos julgamentos de crimes contra as mulheres;

b) Rigor nos julgamentos de crimes contra os homossexuais;

c) Rigor nos julgamentos de crimes contra as crianças.


Fora o machismo e o patriarcado. Ser homem não é ser o oposto de ser mulher. Essa divisão não é natural. Ela foi construída histórica e socialmente. Homens e mulheres são diferentes, mas não opostos. Entre os próprios homens há enormes diferenças, bem como entre as mulheres. É tolice querer hierarquizar a sociedade com base no sexo de cada um. Igualdade e respeito são as bases de qualquer sociedade equilibrada e saudável.

Veja essa dica:  AQUI

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