Controle, vida e preconceito - artigo de Pedro Sammarco


Controle, vida e preconceito



A vida tem um valor muito grande. Tudo gira em torno dela. É a partir dela que damos sentido a ela mesma. O instinto de sobrevivência é muito forte. Sempre acompanhamos por meio da mídia receitas de como viver bem, mais e melhor. Quem vive mais, consome mais, por mais tempo. Necessitamos de organização. As religiões auxiliaram nesse processo desde os tempos mais antigos. Os modos de vida eram regrados e as pessoas começaram a se organizar em nome da salvação e a continuação de uma possível vida “do lado de lá”.

Simultaneamente ao domínio das religiões, surgem os códigos penais e civis dos povos. Mais tarde surgem as ciências. A principal, que nos interessa compreender é a medicina. Juntamente com a religião, códigos legais e jurídicos formam um conjunto poderoso de controle sobre nossas vidas. Além disso, procuram extrair dos corpos que controlam obediência e um alto potencial de consumo e multiplicação dos lucros financeiros. O sistema financeiro é outra grande forma de controle e poder, não é? A família nuclear burguesa (papai, mamãe e filhinhos) vai se tornando a célula de funcionamento fundamental desse imenso complexo social. Pois bem, o conceito de família tem mudado muito ao longo dos séculos de acordo com o local e a época.

Na nossa sociedade ocidental, a igreja, os códigos legais e jurídicos, a medicina, os sistemas econômicos e políticos têm formatado muito nossas famílias ao longo dos tempos. O sexo vai ser vigiado e regrado para que garanta a geração de mais vida, de maneira segura e de acordo com “o correto”.

As leis que regravam a vida em família e a “monogamia” garantiam o funcionamento social que estava de acordo com as normas do direito, religião e medicina. A condição da mulher de dependência fazia com que essas ficassem mais restritas ao lar. Porém, de forma geral, os homens sempre viveram mais livres. Podiam praticar o sexo fora do casamento o quanto quisessem.  

Com o avanço dos tempos as mulheres conquistaram seu espaço e não dependiam mais tanto dos homens. O sexo passou a ser mais livre e os divórcios mais comuns. A família se reinventava. Com o advento de uma doença que surgiu no início da década de 1980, chamada AIDS, todos se assustaram devido ao seu grande poder de ameaça à vida. O bode expiatório da vez foram aqueles que não praticavam o sexo de forma “santa” e de acordo com as regras. A AIDS passou a ser julgada sob o ponto de vista moralista. Afinal, se contaminar com o vírus do HIV passou a revelar a promiscuidade que sempre existiu de forma velada. Outro aspecto revelado foi que a orientação sexual muitas vezes pode ser bissexual e até mesmo oscilar.

No início da descoberta do HIV, os homossexuais foram os primeiros acusados de disseminarem o vírus. Foi chamado de câncer gay, pois suas atividades sexuais não estavam de acordo com as normas da procriação cristã, médica e jurídica. Logo, os que se contaminavam eram acusados de estarem sendo castigados por Deus.

Aqueles que contavam que eram soropositivos eram condenados à solidão e ao preconceito. Afinal quem os aceitaria? A carga moral que permeia o HIV é muito grande até os dias atuais. Os casais sorodiscordantes enfrentam muitos preconceitos, os deles próprios e os da sociedade.

Felizmente existem grupos de auto-ajuda. A internet proporciona trocas maiores de informações e apoio. O tema está lançado. Convido a pensarmos sobre esse assunto que também é discriminado e silenciado. Não queremos pensar sobre doenças e qualquer ameaça à vida. Ela é considerada nosso bem supremo. Porém, como será que é se envolver e se relacionar com uma pessoa soropositiva? Quais são os principais desafios? Como superar os preconceitos milenarmente construídos? Como permitir o amor fluir e não se deixar levar pela exclusão e a condenação? Como não excluir mais ainda aqueles que já estão excluídos? Só vejo um meio: o amor, por si próprio e pelo outro. Essa é uma das melhores proteções que existem para todos. Afinal, amor também é igual a cuidado, não é mesmo?

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