Bears versus Barbies - artigo de Paulo Sammarco


Bears versus Barbies




Atualmente, o mercado associa valores subjetivos a valores estéticos quando desenvolve e dissemina a seguinte mensagem: a beleza externa aparente em músculos bem torneados e definidos, nada mais é do que o reflexo direto da existência de uma beleza interna correspondente. Já a obesidade é associada à preguiça, lentidão, acomodação, falta de saúde, baixa agilidade, pequena produtividade, falta de cuidado, desleixo, dificuldade de adaptação, falta de flexibilidade, predisposição à outras doenças fatais, exigência de cuidados especiais adaptados, problemas emocionais e falta de beleza estética. No final o que importa para o mercado da saúde e estética é que muitas pessoas tenham sempre uma vida longa e saudável. Quanto mais tempo todas elas viverem, mais lucros geram. Cuidar da saúde virou um negócio.

A disciplina corporal cria corpos padronizados e subjetividades controladas. Quem não tem um corpo jovem, bronzeado, malhado, magro, lipoaspirado e siliconado, é visto como alguém que fracassou inclusive em outras dimensões da vida, como finanças, profissão, família, vida sentimental, amizades, dentre outras.

Dois grupos bem distintos existem entre os vários “tipos” de homossexuais masculinos: os bears (ursos) ebarbies (malhados). Interessante que são opostos. Um valoriza o cuidado excessivo com a saúde e estética. O outro valoriza a naturalidade de ser dos corpos. Pois bem, quando o movimento homossexual se tornou público principalmente por causa da revolução sexual da década de 1960, surgiu uma estética que combatia os estereótipos do homossexual conhecida até então.

A construção dos gêneros é algo social, porém as tradições religiosas, demandas sociais e econômicas contribuíram para que a heterossexualidade fosse considerada a única orientação sexual “verdadeira”, “correta”, “natural” e “possível”. As normas de gênero estabelecem a seguinte equação matemática aplicável a todos os homens: pênis = identidade de gênero masculina compulsória = desejo afetivo sexual exclusivo por mulheres.

Por causa disso, durante séculos, as ciências médicas acreditavam que para um homem gostar de outro homem, deveria haver necessariamente uma “mulher” que habitasse seu interior. Logo, todos os homossexuais deveriam ser sempre afeminados. Por volta da década de 1970, surgiu nos EUA os homossexuais que reforçavam os estereótipos considerados masculinos. Usavam couro, fumavam charutos, tinham corpos bem peludos, barba, bigode, barriguinha, costeleta e cavanhaque. Isso funcionava como forma de mostrar que o homem para gostar de outro homem não precisava ter uma “mulher” dentro de si. Com o advento das academias de ginástica, que surgiram aos montes na década de 1980, outra estética foi se construindo: a do homem bem musculoso, eternamente jovem, sarado, depilado, simétrico, bronzeado e obcecado pelos cuidados com a saúde.

Os dois grupos são formas peculiares e opostas de ser, porém há algo em comum: rejeitam os estereótipos de feminilidade que são associados ao desejo homossexual masculino. Sabemos que quanto mais o desejo for oculto, maior a aceitação social. Quanto mais masculino na aparência, seja bear, ou seja barbie, ele estará de acordo com as normas de gênero estabelecidas. Para a sociedade, seu desejo não aparece. Então, a maioria deduz que seu desejo é automaticamente heterossexual. Ele está “livre” de preconceitos! Será?!

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