Transfobia: Travesti é brutalmente morta em Votuporanga


Chega de lesbofobia, gayfobia, transfobia


Travesti é brutalmente morta em Votuporanga



A profissional do sexo Vitória, 21 anos, teve o pênis cortado, orelha arrancada e o pescoço degolado




18/09/2012 06:05

Luciano Moura


A profissional do sexo Vitória (Marcos Gustavo da Silva Costa), de 21 anos, foi morta brutalmente na madrugada de domingo, no Distrito Industrial 1, em Votuporanga. 

O crime chocou a cidade, que tem cerca de 86 mil habitantes, pelos requintes de crueldade e frieza do assassino. A travesti teve o pênis cortado, uma das orelhas arrancada com uma faca e o pescoço degolado. O assassino levou a bolsa e o celular de Vitória, que estava na cidade havia duas semanas, além do pedaço da orelha como “troféu”. 

Em um mês, esta é a terceira morte de travesti na região. No mês passado, duas profissionais do sexo foram mortas e outras duas foram baleadas nas mãos durante uma chacina em Rio Preto. O ex-policial Benedito de Jesus Carvalho, acusado de cometer os crimes, e a suposta mandante – a travesti Taila (Fabrício Silva) estão presos há um mês. O delegado Alceu de Oliveira Júnior pediu nesta segunda-feira (17) a prorrogação do inquérito policial por mais 30 dias (leia mais na página 3). 

Essas três mortes “engrossam” uma estatística que coloca o Brasil em primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos homofóbicos, de acordo com o Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais de 2011. Segundo o documento, no ano passado, foram documentados 266 assassinatos de gays, travestis e lésbicas no país. 

O crime/ De acordo com informações da Polícia Militar de Votuporanga, o corpo da travesti foi localizado, por volta de 5h30, por outra profissional do sexo conhecida como Bruna. 

O terreno onde estava o corpo, que fica próximo ao Ecotudo - ponto de descarte de lixo -, é conhecido como local para programas sexuais de travestis e garotos de programa. 

No local, há câmeras de segurança por causa do Ecotudo. Entretanto, não teriam captado nada. Apesar de o crime ter fortes indícios de intolerância sexual, o delegado João Donizete Rossini, da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Votuporanga, que é responsável pelo caso, disse que ainda é cedo para determinar a motivação do crime, por isso, não descarta qualquer hipótese. O crime pode ser de vingança, homofobia, acerto de contas e até passional. “Mas ainda não há pistas do assassino e as investigações continuam”, disse ele. 

O BOM DIA apurou ainda que uma testemunha teria afirmado em depoimento à polícia que o assassino estava dirigindo um Del Rey. Mas o delegado não confirmou essa informação à imprensa. 
O corpo de Vitória foi enterrado no cemitério municipal de Tanabi ontem pela manhã.

Psicólogas afirmam que há fortes indícios de crime homófobico

A psicóloga Gisele Lelis Vilela de Oliveira afirma que há fortes indícios de que o crime que tirou a vida da profissional do sexo Vitória (Marcos Gustavo da Silva Costa), 21 anos, em Votuporanga, pode ser classificado como homofóbico pelos requintes de crueldade do assassino. “É possível que se trate de um psicopata, mas seria necessário fazer uma avaliação. Geralmente a psicopatia é caracterizada por insensibilidade, crueldade, impulsividade e emoções superficiais. Além de ausência de sentimento de culpa. Eles são manipuladores e tendem a se envolver com atividades criminosas”, afirma ela. 

A psicóloga Ana Soares Santana também afirma que é um crime motivado por intolerância sexual. “É inegável que neste caso há traços de um crime homofóbico. Tudo leva a crer que o assassino é perverso e cruel. Ele tem ódio com a identidade de gênero”, afirma a psicóloga. 



Segundo ela, só um diagnóstico mais técnico poderá avaliar o que o motivou a matar, degolar, cortar o pênis e arrancar uma das orelhas da vítima. 

Para a travesti Carla Lopes, não há dúvidas sobre a motivação para o crime. “O assassino é louco, cruel e homofóbico. Tem de ser preso”, afirma. Ainda segundo ela, as travestis só fazem programas para conseguir sobreviver. “Não há oportunidades de empregos para nós. A sociedade finge que nos aceita. Se nos considerassem, nos dariam empregos e não teríamos de vender o corpo”, disse.

Delegado da DIG pede prorrogação de inquérito que investiga mortes de duas travestis em Rio Preto

O delegado da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Rio Preto Alceu de Oliveira Júnior pediu a prorrogação por mais 30 dias do inquérito policial que investiga a morte de duas travestis, na madrugada do dia 15 do mês passado. Além das mortes das travestis Eduarda (Carlos Eduardo Vasconcelos), de 30 anos, e Izabelly (Abelardo dos Santos Freier), 24, outras duas foram baleadas nas mãos. No dia 17 do mês passado, a polícia prendeu o ex-policial militar Benedito de Jesus Carvalho, de 50 anos, acusado de ter cometido o duplo homicídio por encomenda da travesti Taila (Fabrício Silva), 31. De acordo com a polícia, as duas travestis teriam sido mortas porque não admitiam ser extorquidas por Taila. “Estamos esperando ainda resultados de alguns laudos para concluir o inquérito. 

Mas há fortes indícios da relação entre o autor e a travesti presa. O que pode ter gerado a combinação do ataque”, afirma o delegado Fernando Augusto Nunes Tedde.

País da intolerância

Nos Estados Unidos, com 100 milhões a mais de habitantes que o Brasil, foram registrados nove assassinatos de travestis em 2011. Enquanto que nos estados brasileiros, foram executados 98. O risco de um homossexual ser assassinado no Brasil é 800% maior do que nos Estados Unidos, de acordo com o Relatório Anual de Assassinatos de Homossexuais de 2011.

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Veja matéria da Carta Capital: 




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