Orientação sexual - ótimo texto para educadores




Orientação sexual

O último e não menos importante aspecto da sexualidade diz respeito ao desejo erótico. A nosso ver, a orientação sexual é o sentimento de atração que temos por uma ou várias pessoas tanto no âmbito afetivo como no sexual. É como um turbilhão que envolve fantasias e paixões, indicando o tipo de pessoa que nos atrai. Os seres humanos podem legitimamente se interessar sexualmente pelo sexo oposto, pelo mesmo sexo ou ainda por ambos os sexos. Serão, respectivamente, heterossexuais, homossexuais ou bissexuais. Esse interesse pelo/a outro/a pode desencadear afetos (amor, amizade, carinho), mas pode limitar-se ao contato corporal. Como, no entanto, nos é ensinado em nossa cultura, sobretudo pelas religiões, que o desejo sexual não deve existir desvinculado de algo “maior”, reprimimos aqueles sentimentos que julgamos não estarem de acordo comesse destino elevado (apaixonar-se, casar-se, ter filhos). Com isso, ao longo de nossas vidas aprendemos que as relações afetivas e sexuais são “normais” se ocorrerem entre pessoas de sexos opostos. E um verdadeiro arsenal de coerções de todos os tipos – culturais, sociais, físicas, históricas, financeiras – nos levam a “controlar” nossos desejos. Em muitas situações, a preferência sexual poderá ser ocultada ou camuflada, devido à força das convenções sociais e da consequente repressão que engendram quando alguém ousa descumpri-las.

Dado que a heterossexualidade foi erigida como o padrão, isto é, como a “única forma correta de vivenciar a sexualidade, socialmente aceita e inquestionável”, não é nada fácil para alguém admitir que é homossexual.  

Quem sente um forte desejo por alguém do mesmo sexo se vê acuado pelo clima adverso que o/a condena como imoral, pecador/a ou até doente mental. Sozinho/a e sem ter com quem conversar, a pessoa pode condenar em si mesmo/a, com maior rigor e culpa, o que os outros dizem ser condenável, pois a maneira como se vê fica totalmente impregnada pelo preconceito. Por isso, desvaloriza-se, foge de si e de seus sentimentos e chega até a negar-se como pessoa, muitas vezes autoflagelando-se psíquica ou fisicamente.

Das três orientações sexuais possíveis – a hetero, a homo e a bissexual, possivelmente a última é amais incompreendida. Novamente nos vemos às voltas com o raciocínio binário que, dessa vez, num outro patamar, nos impõe uma escolha mutuamente exclusiva entre homo e heterossexualidade. O próprio Freud chamava a atenção para o fato de que os seres humanos nascem abertos para se interessarem por ambos os sexos. Potencialmente, somos todos e todas bissexuais, pois carregamos a possibilidade de nos sentirmos atraídos/as pelos dois sexos. A sociedade, contudo, tem dificuldade em lidar com essa complexidade e empurra os indivíduos para “caixinhas fechadas”.

Durante a adolescência, é comum que jovens tenham experiências com colegas do mesmo sexo. De forma alguma isso é uma prova definitiva da orientação sexual. Pode indicar simplesmente um meio de buscar conhecer certas formas de satisfação e de tatear o universo do desejo erótico. Pode também ser o momento de uma descoberta, caso o/a jovem se sinta realizado/a e confortável com aquela experiência. Seja como for, uma coisa é certa: apenas quem vivencia o desejo é que pode afirmar, com certeza e tranquilidade, a sua orientação sexual.

Para concluir, enfatizamos que a identidade de gênero é sentir-se homem ou mulher, e o modo de expressá-la socialmente não se confunde com a orientação sexual (a atração afetiva e erótica pelo outro sexo, pelo mesmo sexo ou por ambos). Vale dizer que não se pode “deduzir” a orientação do desejo de alguém em função de traços de seu jeito de ser. Um homem cuja profissão o faz lidar com o público pode ser gentil e isso nada tem a ver com o fato de ser bi, homo ou heterossexual. Uma mulher pode ter preferências por outras sem ostentar uma postura agressiva, isto é, sem vivenciar o estereótipo da “caminhoneira”.

De Beto de Jesus, Lula Ramires, Sylvia Cavasin e Sandra Unbehaum em Diversidade sexual na escola: uma metodologia de trabalho com adolescentes e jovens, São Paulo, 2006.

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No guia produzido pelo CORSA em parceria com a ECOS (e distribuído a todas as escolas da rede estadual de ensino de São Paulo – disponível em PDF, para quem quiser acessar a obra inteira), aparece o seguinte trecho (p. 36 e 37), que é uma apresentação simplificada (para fins didáticos) aos educadores e educadoras. Para solicitar o PDF, escreva para:  lularamires@terra.com.br .

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