MINHA OPINIÃO: O BRASIL NÃO SERÁ DO "SENHOR JESUS" - por João Marinho

MINHA OPINIÃO: 
O BRASIL NÃO SERÁ DO "SENHOR JESUS"

Veja o texto do Paulo Lopes sobre desaceleração do crescimento evangélico AQUI


A respeito da entrevista com o teólogo Paulo Ayres Mattos (link da notícia do blog de Paulo Lopes abaixo com link para a entrevista em si), devo dizer que concordo com suas ponderações. A questão religiosa é dinâmica. Muitos consideram que o crescimento evangélico no Brasil vai levar a uma teocracia, onde eles mandarão e desmandarão de acordo com os dogmas mais conservadores.

Apesar de todas as dificuldades que eles têm imposto ao Estado laico, não acredito que chegarão, porém, a uma hegemonia tal que possibilite isso. As mudanças no mundo ocidental têm imposto que, com o crescimento, vem a diversificação. E, com a diversificação, vem a possibilidade de privatização da fé e de individualização dos dogmas. E, vale dizer, isso é mais forte como consequência entre evangélicos, pois o protestantismo é essencialmente fragmentário (há até vertentes protestantes que têm assumido bandeiras teologicamente não tradicionais no que diz respeito a reprodução e sexualidade).

De certa forma, é bem isso que aconteceu e tem acontecido com a Igreja Católica de umas décadas para cá. Existia uma maioria católica histórica no Brasil que seguia cegamente os dogmas católicos. Mas, à medida que cresce a diversificação, a privatização, a individualização e a própria religião começa a se fragmentar em opções para os diferentes gostos - como a própria Icar tem feito - abre-se a porta para a formação de personagens "exóticos" que combinam vários elementos religiosos, se sentem confortáveis em discordar do dogma tradicional, e, ainda assim, se consideram parte de uma religião em específico.

É o caso do católico que se considera católico, mas apoia a união civil homossexual, frequenta centros de mesa branca de vez em quando, não tem problemas em dar uma sapeada em uma campanha evangélica por emprego e usa camisinha com a namorada - a despeito de tudo isso ser contra a pauta católica tradicional. Com um número grande de adeptos, é mais difícil controlar o que cada um faz.

Nesse sentido, também entendo o maior conforto no surgimento de figuras como os "evangélicos sem igreja" e até a maior "saída do armário" dos ateus, agnósticos e sem religião. Você pode esperar que, em breve, aparecerá uma figura desconhecida no Brasil até agora, mas que dará as caras: o evangélico não praticante.

Claro que nem tudo é um mar de rosas. Durante o crescimento, os pentecostais acumulam força política e podem influenciar determinadas condutas do Estado, especialmente quando em conluio com outras forças conservadoras. Daí, o "apagão" de políticos pró-homossexuais no governo Dilma.

No entanto, com o aumento da diversificação, com a renovação de gerações e com a reação de outros setores religiosos e arreligiosos (ninguém cresce sem formar "inimigos"), de um lado, perde-se o ímpeto de crescimento, de outro, aumenta-se o caldo religioso que possibilita a formação dos "tipos exóticos" e, por fim, chega-se ao limite máximo de crescimento, vindo a seguir uma estagnação e um encolhimento até surgir outro movimento religioso que inflame a população.

Assim, não deixa de ser notório que, embora tenham cada vez mais tentando influenciar questões públicas relacionadas à saúde, educação e sexualidade e até conseguindo inflingir certas derrotas, os pentecostais e fundamentalistas evangélicos não têm conseguido impor um RETROCESSO qualitativo ao que já se conquistou, mas, com mais frequência, um ATRASO na evolução/aprovação das pautas mais progressistas. Comparativamente, do final dos anos 80/início dos anos 90 para cá, se nos ativermos ao cenário gay, a comparação mostra que houve um processo evolutivo: gays têm mais direitos e garantias hoje do que antes. Foi o mesmo período em que os pentecostais cresceram e entraram na política e, até o momento, eles fizeram essas pautas andarem mais devagar - mas não retroagirem.

Dentro disso, o cenário que considero mais provável no Brasil possa ser semelhante ao dos Estados Unidos, embora com menos força, já que, nos EUA, o processo é mais antigo, em que há uma constante medição de forças entre os lados progressistas e fundamentalistas na política, com vitória para um e para outro, mas, no cômputo geral, com progressismo das pautas. Isso deve se fazer sentir ainda mais conforme, no movimento de "exotismo" a que falei, a população começa a se distanciar dos dogmas tradicionais e fazer suas próprias escolhas "privativas" e, conforme mostrou o teólogo, haja um aumento das escolhas racionais não mágicas. Nos EUA, dos 4 estados que votarão a união gay em plebiscito em novembro, pela primeira vez, a expectativa, dada pelas pesquisas, é que todos a aprovem, em vez de bani-la.

Evidentemente, não podemos, porém, esperar sentados. É preciso que os setores progressistas, religiosos ou não, arreligiosos e até ateístas se articulem, para que essa condição se torne o menos difícil possível de ser enfrentada e diminuam o poder de fogo do fundamentalismo mais rápido a médio prazo.

Comentários