Vidas do Avesso - Edith Modesto


Vidas do avesso
As dificuldades enfrentadas pelos transexuais em nossa sociedade

E
le nasceu João, mas se sente Maria. Ela nasceu Ana, mas se sente José. Essa seria uma forma simples de explicar os transexuais. A questão, no entanto, é muito mais complexa. Além disso, é pouco esclarecida no país. Sem voz, os “trans” encontram dificuldade em fazer a sociedade entender sua natureza – que, às vezes, nem eles mesmos entendem. São confundidos com homossexuais ou levados a viver como tal até que se adequem. E enfrentam uma batalha árdua, presos dentro de um corpo que sua alma, de gênero oposto ao sexo de nascimento, não comporta.

Para saber...
v  Travestis e transexuais são frequentemente confundidos. Na verdade, os primeiros são transgêneros, ou seja, se identificam com o gênero oposto ao do nascimento, mas não veem problema em conviver com seu órgão sexual. Transitam entre os dois sexos, com aparência de um e genitália de outro. Os transexuais, por sua vez, não se aceitam no sexo de nascimento (biológico) e, por isso, recorrem à cirurgia de readequação sexual, além de passarem pela hormonização.
v  Transexuais não são necessariamente homossexuais. Mas, existem transexuais gays e lésbicas. Isto é, se ele nasceu João, se sente Maria, mas se atrai por Alice, é então uma transexual lésbica. Como assim? Bem, em sua identidade de gênero ela é mulher, provavelmente se tornará uma através da cirurgia e, apesar disso, gosta de mulheres. O mesmo vale para Ana, se ela se sente José, mas se apaixona por Marcos. Trata-se de um transexual gay.
Esses são casos incomuns. Os transexuais geralmente são heterossexuais. Ou seja, sentem atração pelo sexo oposto ao que se identificam (seu sexo biológico).
v  O termo usado para transexuais mulheres (nascidas homens) é MtF, do inglês male to female (masculino para feminino). Para transexuais homens, é FtM, de female to male (feminino para masculino)


Verônica Freitas, 22, nasceu menino. Quando tinha entre 7 e 8 anos, se deu conta de que não se sentia igual aos demais garotos. Mais do que isso, a jovem percebeu que se identificava com as meninas. E foi aí que veio o medo, inconsciente, da família. Acabou se retraindo, com medo da rejeição. “Guardei segredo, e acabei sendo levada a diversos psicólogos por causa de meu jeito calado, pois acreditava que minha família iria notar que eu tinha desejo por ser uma menina e não um menino como eles viam”, conta.

Na busca por tentar entender porquê era diferente, Verônica assistiu na tevê um programa que falava sobre gays e achou que era homossexual. Apesar disso, sabia que se sentia diferente dos homens. Ela sentia atração pelo mesmo sexo – o masculino – mas, não se sentia bem consigo. Desejava ser uma mulher.

Foi só quando passou por tratamento psicológico que ela descobriu sua transexualidade. “Ela [psicóloga] me notificou que todos aqueles problemas que eu passava desde a infância até a adolescência era por causa de meu desejo em me tornar quem eu sou”, relata a jovem.
Atualmente, Verônica faz tratamento de transexualidade com um especialista e é acompanhada também por uma psicóloga, com quem compartilha seus sentimentos relacionados a não ser vista e aceita como é. Apesar das dificuldades, demonstra força.

Tem uma frase que carrego comigo: ‘a vida às vezes te vira do avesso, aí você nota que o avesso é seu lado certo’, então, é isto que eu penso.

De ela ao ele

Ele nasceu ela. O revisor Cristiano Braule, 30, que prefere ser chamado de Cris e não gosta de mencionar seu nome de batismo, nasceu menina. Está no auge do processo de adequação e se mostra empolgado e ansioso em desenvolver sua aparência masculina.
A consciência de que sua identidade de gênero era diferente veio desde cedo, também. Com 5 anos de idade, Cris já sabia que queria ser um garoto. Assim como Verônica, sabia que teria de esconder da família.

“Eu, com 9 anos, já tinha uma consciência muito grande de que eu não podia falar isso nem pro meu pai e nem pra minha mãe. Eu sabia que não era uma das coisas mais naturais.”, lembra.

A adolescência foi solitária e triste, enquanto tentava se enquadrar no gênero feminino. Cris conta que era uma “menina esquisita”, algo desleixada. Quando entrou na universidade e assim, passou a morar em Campinas, teve o primeiro contato com a comunidade LGBT. Confuso, sem informações sobre transexuais, se identificou como lésbica e conheceu a atual parceira, Kelli. Com o relacionamento, acabou se aproximando mais do grupo “GLS”, mas só com o tempo, por acaso, o rapaz – então, uma lésbica masculinizada – encontrou na biblioteca da universidade um livro sobre transexualidade. A publicação tinha fotos de cirurgias, conforme conta Cris. Foi o começo para que buscasse outros dados. Acessou grupos em inglês que abordavam a temática. No Brasil, informações nesse sentido eram raridade. “Há 10 anos ainda era bem complicado achar coisas em português [na internet]”, ele recorda.

Há cerca de um ano, apenas, Cris pôde começar o sonhado processo de transformação. Está fazendo tratamento hormonal e já fez a retirada dos seios. É o começo da mudança tão desejada.

Não me arrependo de jeito nenhum em ter começado [a hormonização]. Me arrependo de não ter começado antes.


“Quero ser uma princesa”

Mia Kodera nasceu Leandro Enzo Kodera. A jovem de 19 anos conta sua história com orgulho, ressaltando que ser uma mulher transexual não faz dela imoral ou transgressora de regras. É estudante em cursinho pré-vestibular e tem planos de iniciar o curso de Direito na universidade esse ano.

Mia percebeu que se sentia como menina quando criança, ao assistir os desenhos da Disney. Ela lembra que imaginava como seria se fosse uma daquelas princesas. “Nunca cheguei verdadeiramente a ser um menino, mesmo criancinha. Sempre rejeitei carrinhos e bonecos de robô e sempre pegava as Barbies da minha irmã mais velha. (...) Sempre senti a transexualidade dentro de mim!”, diz.

O sentimento com relação à família foi o mesmo. Sentia que tinha de esconder sua identidade. Uma vez, quando pega brincando com as bonecas da irmã, foi castigada. Apesar de tentar segregar, a estudante conta que desde cedo queria acessórios rosas, jogava vídeo-game com personagens femininas e queria imitar seus penteados.

Aos 14 anos, tendo sofrido muita pressão e se sentindo sem saída, Mia se assumiu trans. Usar publicamente maquiagem, manter o cabelo comprido e afirmar a plenos pulmões que se sentia garota causou transtorno na família. Os pais já se mostravam descontentes com a possibilidade do filho ser gay, a irmã a acusava de ser um rapaz homossexual, sem que entendessem o transtorno de gênero de Mia. (veja mais em Famílias e Relacionamentos, na p. 7).

Histórias como a de Verônica, Cris e Mia não são incomuns. Gradualmente, os transexuais estão conseguindo sair da invisibilidade e proclamar seus direitos - que são, principalmente, o de fazer a cirurgia de readequação sexual e obter a mudança de nome (e de sexo) nos documentos. Mas, é um processo demorado e cansativo para quem anseia tanto vivenciar plenamente seu gênero.

O psicólogo Charles Bordin, especializado no atendimento de pacientes transexuais, afirma que a condição, ainda encarada como patológica, não deveria ser vista dessa forma. Ele explica ainda a diferença da abordagem do ponto de vista clínico e do sociológico.

“A medicina parte de uma perspectiva biológica, ou seja, o sexo biológico determina o gênero que já nasce com o sujeito. Nossa compreensão é de que a noção de gênero e a forma como as pessoas vivem e o experimentam são sócio-historicamente construídas e influenciadas pela cultura.”

Assim, como estão envolvidos fatores sociais e psicológicos na identificação do indivíduo como transexual, é necessário acompanhamento para garantir que o emocional e o racional estejam em comum acordo, antes de mudanças irreversíveis no corpo, por exemplo.

“Quando avalio um transexual para saber se ele pode se submeter à cirurgia e mudar de nome, avalio a estabilidade de sua personalidade e experiência.”, relata o psicólogo.  “Observo de onde parte o desejo de pertencer a um determinado gênero e de que forma a pessoa passa por esse processo. Se observo que a questão é muito confusa e instável na vida da pessoa, eu recomendo que ela faça psicoterapia para entender [esse processo] e tomar uma decisão mais consciente. Mas, entendo isso como um direito primordial da pessoa sobre seu corpo. Não existe aqui a presença do discurso médico dizendo que deveria ser ‘assim ou assado’, ou seja, nasceu com pênis é homem e pertence ao gênero masculino. Realizar a cirurgia nesse caso é um direito humano e não a solução encontrada para a solução de uma patologia.”, pontua.

Esse acompanhamento é primordial para que o indivíduo trans, na ânsia por se tornar uma pessoa com as características do gênero com que identifica, não apele para medidas drásticas e que coloquem sua saúde e vida em risco.

A ONG GPH – Associação Brasileira de Pais e Mães de Homossexuais, preocupada com esses perigos, conseguiu no ano passado o apoio de profissionais para o acompanhamento dos jovens trans. Apesar de ter começado como um grupo de apoio a pais de gays e lésbicas, a organização hoje realiza uma série de projetos sociais e culturais para LGBTs. A presidente da ONG, Edith Modesto, professora formada pela USP e que atualmente cursa pós-doutorado em Psicologia na mesma instituição, fala um pouco sobre o projeto de aconselhamento para redução de danos, que o GPH está disponibilizando a esse público.

“Temos há alguns anos um projeto de ‘acompanhamento terapêutico’ realizado por profissionais capacitados dentro do GPH para pais e para jovens. No entanto, não tínhamos psiquiatra e o conseguimos em 2011. Tampouco tínhamos médico endocrinologista, que também conseguimos em 2011. A dificuldade é que há um protocolo proibindo o tratamento de jovens transexuais e transgêneros, com menos de 18 anos. Desse modo, nossos jovens ‘TTs’ tomam pílulas anticoncepcionais sem nenhum acompanhamento, arriscando-se a doenças muito sérias e até a morte.”

A doutora acrescenta ainda que, uma vez que os jovens transexuais já estão fazendo uso indiscriminado dos medicamentos, a iniciativa nasceu de forma a aconselhá-los quanto ao uso correto dos contraceptivos e demais hormônios.

O problema está na necessidade dos pais assinarem termo para esse acompanhamento. Na maioria das vezes, a relação com a família é frágil.

Nesse sentido, Charles Bordin também levanta outro problema que impede alguns trans de receber acompanhamento adequado. Além de atendimento particular, o psicólogo atende no Centro de Combate à Homofobia e relata que não há fila de espera para consultas no serviço disponibilizado pela prefeitura para os LGBTs. “Entendemos que ainda não somos tão procurados porque as pessoas ou desconhecem essa possibilidade ou tem receio de procurar ajuda em um lugar que seria a materialização da afirmação de: sou um LGBT. As pessoas tem mais facilidade de procurar ajuda onde não existe um rótulo.”, afirma.

Além do tratamento psicológico e hormonal, uma das grandes demandas desse público é a cirurgia. Existem várias cirurgias para adequação. As mulheres transexuais, ou MtF, buscam realizar desde implantes de mamas de silicone à vaginoplastia, ou seja, a cirurgia de mudança de sexo masculino para feminino. Os homens trans, ou FtM, por sua vez, fazem cirurgias como a mastectomia (retirada das mamas) e histerectomia total (retirada dos órgãos reprodutivos). Os procedimentos para implante do pênis ainda são muito rústicos. Para Cris, a mastectomia e a hormonização, principalmente, já fazem grande diferença na vida do homem transexual.  Tendo passado pela mastectomia recentemente, relata emocionado a mudança que veio com as transformações do corpo.

“Acho que o conforto vem com a hormonização. Alguma mudança acontece, porque antes, as pessoas me confundiam. Isso com a hormonização acontece menos. Esse é o ganho mais gratificante quando você decide [fazer o tratamento hormonal].”

Mia, que soube cedo que seu caso era de transexualidade, relembra o receio que sentiu ao saber das mudanças que o corpo sofreria na puberdade, antes de se assumir para a família. “Eu comecei a ficar com medo porque o corpo muda na puberdade! Eu não sei o que é, mas eu sempre fui muito feminina de aparência, pode ser alguma disfunção hormonal ou por sempre acreditar que eu sou mulher no meu cérebro fez com que os aspectos masculinos não se desenvolvessem em mim ou a genética oriental, porque dizem que as trans orientais são as mais belas ou sorte mesmo.”, desabafa. Devido ao conflito, a jovem entrou em depressão profunda e sofreu de distúrbios alimentares: anorexia e bulimia nervosa. Charles justifica que os transexuais, assim como gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, estão mais sujeitos a sofrer de doenças de ordem psiquiátrica devido ao lugar que ocupam na sociedade. São considerados anormais, portadores de patologias, sofrem isolamento. E isso os torna propensos a quadros de depressão.

Hoje, Mia faz tratamento psicológico e frequenta um grupo de transexuais. Ela conta que ouvir outras histórias e “colocar para fora” o que sente ajuda. A vestibulanda já tem o laudo de transexualidade conferido por seu psicólogo, e a ciência de que os trâmites para a cirurgia são um tanto burocráticos.

Cris menciona que para os transexuais FtM como ele, a única cirurgia feita pelo SUS é a histerectomia, sendo que muitas vezes a mastectomia, que é mais simples, tem muito mais importância para os rapazes trans. Sua cirurgia foi feita através de clínica particular – um acesso que nem todo transexual tem. Além disso, Cris teve de fazer o processo de forma inversa. Sua psicóloga hesitou em ceder o laudo de transexualidade. Ele se sentia velho e com uma bomba-relógio correndo para começar as mudanças. Consultou então uma endocrinologista, que atende a maioria de seus amigos transexuais, fez os exames, iniciou a hormonização, fez a cirurgia e só então entrou com o pedido do laudo no Centro de Referência e Treinamento DST/Aids  de São Paulo (CRT). O laudo é necessário para a mudança nos documentos.

Tentamos contato com o SUS para saber quais são as medidas necessárias para ser encaminhado às cirurgias de readequação, mas não obtivemos resposta até o fechamento dessa reportagem.



Barreiras na escola e no trabalho

A dificuldade de conseguir a mudança da documentação, bem como a falta de preparo de alguns setores sociais para acolher os transexuais são mais alguns dos problemas que eles enfrentam.

Mia confessa que sua experiência no ensino regular não foi fácil. Começou a frequentar a escola como garota a partir do Ensino Médio. Através de conversa com a diretoria, conseguiu que seu nome social constasse da chamada e assim, passou despercebida por quatro meses, sendo tida como mulher biológica, até que a verdade veio à tona e começaram os boatos.

“Quando todos souberam [que é transexual] me senti como atração de zoológico! Todos me encarando, rindo, ‘procurando’ algo masculino em mim. E foi assim também que aprendi leitura labial! Sinto de longe e sei quando falam de mim. É instinto e isso me machuca, mas estou trabalhando para que não machuque mais!”, revela.

Além disso, sofreu agressões verbais, foi vítima de fofocas e teve ofensas a seu respeito pichadas pela escola.

Com o tempo, alega que os estudantes acostumaram-se à ela, bem como ela se acostumou à “plateia”.  Havia certo estranhamento por parte dos calouros. Por outro lado, alguns colegas e professores a protegiam. Agora, Mia vê a experiência como algo que a fortaleceu.

No mercado de trabalho a questão também é problemática. Cris afirma que o nome é um impedimento. Enquanto não se tem a documentação alterada, os transtornos começam já na entrevista de emprego ou, se não, nos processos de RH. Mesmo nos concursos públicos, a burocracia é grande. “Por exemplo, no estado de São Paulo e no município, existem decretos que fazem com que a administração tenha que respeitar seu nome social, só que se você fizer sua inscrição no concurso e colocar seu nome de registro e entre parênteses, o nome social, eles [administração] vão indeferir sua inscrição, não vão entender o que é aquilo”, explica o revisor.

Devido a essas restrições, Cris trabalha como freelancer, para um amigo. Segundo ele, o fator amizade conta, pois assim pode assinar com seu nome social. Do contrário, teria problemas para a contratação de seus serviços, reconhece.


Família e Relacionamentos


Se a relação com os parentes é complicada, em função da não aceitação, o relacionamento a dois também representa um grande desafio na vida dos transexuais.

A designer Kelli Costa, 37, está casada com Cris há cerca de 10 anos. Eles se conheceram através de uma sala de bate-papo, quando Kelli estava em Bruxelas. Na época, Cris acreditava ser uma moça lésbica e sofria conflito em sua aceitação. A designer, já homossexual assumida, tentou ajudar a garota do outro lado da tela – e do mundo – a entender que ser o que Cris achava que era “não se tratava de um bicho de sete cabeças”. Veio a afinidade, Kelli voltou para o Brasil já encantada com Cris e não muito depois, ambos estavam morando juntos. O relacionamento dura até hoje, uma década depois.


Mas, nem tudo são rosas. Kelli conta que passou por um processo complicado de autoaceitação como lésbica. Enfrentou dificuldades em se identificar com o grupo LGBT da época, que era um tanto underground e com o qual ela só compartilhava a orientação sexual “diferente”. Ela revela que levou praticamente 15 anos para construir sua imagem como homossexual e assim, abrir mão dessa identidade é difícil. Passou momentos árduos para aceitar a transexualidade do parceiro. Atualmente, sabe que se disser que está casada com um transexual, será tida como hétero. Se disser que é lésbica, magoará Cris. Então, Kelli teve de encontrar uma solução menos dolorosa para todos.
“Se eu tiver que, a partir de hoje, rotular, tiver de dar um nome para o que eu sou, eu sou uma pessoa que ama um transexual. Aí eu fico livre de ter que falar que sou hétero, e não magoo ele [Cris], falando que eu tenho uma identidade lésbica. E


acho que é bem verdadeiro pro grupo de amigos, para as pessoas que surgiram na minha vida, me posicionar dessa maneira.”, declara.
A relação com as famílias, tanto de Kelli quanto de Cris, é boa, eles contam. Houve certo estranhamento da parte da família de Kelli e foi um choque grande para a mãe de Cris. O pai, em princípio, afrontou o filho dizendo que ele “nunca seria homem, pois não produziria espermatozoides”. Um ano depois de ter assumido para a família sua identidade de gênero, Cris relata que já se sente aceito. “O que tem às vezes é um problema de adequação, por exemplo, às vezes minha mãe fala no feminino. Eu não tenho mágoa nenhuma quando as pessoas falam: “ela, ele...”, porque eu sei que não é de propósito. Se fosse, seria outra história. Eu fiz cirurgia há um mês, minha mãe ajudou a cuidar de mim. Eu tenho uma relação muito aberta com eles hoje. Depois de 30 anos eu consegui ter uma relação totalmente aberta, não tenho nenhum segredo com eles”.

São outros quinhentos...

Em outros países, como EUA e Tailândia, transexuais eventualmente são personagens em filmes ou mesmo ganham espaço na vida real, como cantores(as), modelos etc. Recentemente, uma mulher transexual concorreu ao Miss Canadá. E o canal Atlantic acaba de lançar um seriado cuja personagem principal é uma transexual. Mas no Brasil...
 A história de Mia é um pouco diferente. O pai, bastante violento, chegou a ameaçá-la de agressão física por vê-la usando maquiagem. Hoje, sendo separado da mãe dela, colocou a filha de outro casamento contra ela.
A irmã mais velha não fala com Mia há seis anos, desde que a jovem se assumiu. Mia considera que a
relação com a mãe esteja um pouco melhor atualmente. No entanto, o atual marido de sua mãe é evangélico. A questão religiosa, somada à não aceitação da mãe, torna a convivência um pouco difícil. “Quando cada um está no seu canto conseguimos nos respeitar”, diz a estudante.


Edith Modesto, em sua convivência com pais de LGBTs através do Grupo de Pais de Homossexuais, afirma que os pais de transexuais, salvo raras exceções, têm maior dificuldade de aceitação dos filhos que os pais de gays e lésbicas.

A advogada Ana Marques é mãe de uma jovem transexual de 18 anos. Com sinceridade, Ana lembra que foi difícil acompanhar a mudança da filha de menino para menina, uma vez que a sociedade retalia o comportamento. A advogada descobriu a transexualidade de Raphaela quando a filha tinha 13 anos e passou a usar as roupas da mãe às escondidas, tentar deixar o cabelo crescer e usar maquiagem. Foi o início de uma batalha. Ana relata que Raphaela enfrentou barreiras em todos os âmbitos sociais: na escola, no trabalho, nas reuniões familiares.

Aos 18 anos, a jovem está passando pela hormonização, já fez implante de mamas de silicone e tem processo em andamento para a mudança do nome no registro geral.

Atualmente, a mãe encara a mudança com naturalidade e apoia a possibilidade da cirurgia de readequação do sexo, que para ela, representará a solução de alguns conflitos que a filha sofre.

Como mãe que vivencia a realidade de ter um filho transexual, a advogada aconselha os pais na mesma situação a não abandonarem a causa. Terem amor, coragem, amparo e fé e andarem de mãos dadas com seus filhos, que são seres humanos como qualquer outro. ■  

Para ajuda a familiares de LGBTs e informações, acesse: www.gph.org.br



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