Uma surpresa agradável no meio de um dia difícil


Uma surpresa agradável no meio de um dia difícil



No Dia Internacional de Combate à Homofobia (17 de maio/2012), eu tinha que trabalhar para ganhar o pão, como a maioria dos brasileiros continua fazendo, a despeito da péssima relação custo-benefício do quadro trabalhista brasileiro. Minha intenção era seguir para a Cinelândia, onde haveria um ato contra a homofobia. Segui meu caminho até o ponto em que tomaria um ônibus expresso na direção do centro do Rio. Depois da manifestação, seguiria para o trabalho que - para minha sorte -  naquele dia começaria mais tarde.

O ato contra a homofobia acabou sendo mais um encontro de meia-dúzia de colegas de classe com direito à foto. Já manifestei minha decepção no Facebook, twitter e listas, portanto não o farei de novo. O objetivo deste post é compartilhar uma surpresa, não uma decepção. E a surpresa foi a seguinte:

Quando meus filhos eram pequenos, eles costumavam brincar com algumas crianças aqui do bairro. Poucas vinham brincar com eles em casa, porque nunca gostamos de intimidade demais com pessoas fora do círculo familiar. Porém, dentre estas crianças, um menino acabou se destacando.

Quando eu era pastor, a mãe dele estava em processo de separação e pediu para conversar comigo e com minha então esposa. Fomos à casa dela, conversamos e oramos. Como o filho dela ainda era um bebê, oramos por ele e fizemos sua apresentação, nos moldes das igrejas evangélicas. Ele cresceu, passou a brincar com meus filhos; cresceu mais ainda e deixou de brincar com eles, mas continuava amigo à distância. J

O tempo passou, eu me divorciei, saí do armário, meus filhos cresceram, e um dia encontrei com o amigo deles de novo, só que agora um rapaz. Ele cursava a faculdade (agora já está formado) e estava assumido, namorando outro rapaz, e em paz em casa - tanto com a mãe como com o pai, que mora em outra casa, mas sempre esteve por perto, inclusive passando bastante tempo com ele quando criança.

Tudo isso, porém, foi uma surpresa em outra ocasião. O que me surpreendeu naquele dia foi ter passado pela mãe dele enquanto caminhava para o ponto do ônibus que me levaria ao ato contra a homofobia na Cinelândia. Cumprimentei-a pelo nome, como sempre faço. Ela respondeu e disse que gostaria de conversar comigo uma hora dessas. Respondi que seria um prazer e que poderíamos combinar uma tarde, inclusive no fim de semana, para conversarmos. Ela deu o tema da conversa de imediato:

- Sabia que eu faço parte da campanha Mães pela Igualdade?

- Sério?! Eu adoro essa campanha! Já estive na exposição que foi feita na Praça XV, publico informações no meu blog, twitter, face, etc. – respondi num tom de surpresa e entusiasmo.

- É por isso que eu gostaria de falar contigo. – explicou.

Daí para frente, fomos conversando tudo o que era possível em cinco minutos parados numa calçada, cada um indo numa direção diferente: falamos sobre filhos, a relação dela e do ex-marido com o filho – que é ótima! -, meu filhos, minha emancipação, etc.

Fiquei tão entusiasmado que decidi presenteá-la com uma coisa que ela nem sabia ainda que existia: meu livro. Disse-lhe:

- Aqui você vai entender muita coisa que as pessoas olham de longe e não entendem: por que casei; meu envolvimento com o ministério; separação; reestruturação da vida, etc. – acrescentei , enquanto escrevia uma dedicatória.

- Um livro? E seu? Nossa, nem podia imaginar que você tinha escrito um livro! – exclamou ela.

Trocamos um abraço e um beijo, e seguimos nossos caminhos. Ela iria para um evento com o Carlos Tufvesson numa universidade, à noite. E eu estava indo para o ato contra a homofobia na Cinelândia. 

Naquela mesma noite, adicionei os dois ao meu Facebook.
Ela, hetero e mãe de um jovem gay. Eu, gay, e pai de dois jovens heteros. Ela, militando de um lado. Eu, militando de outro. Os dois morando na mesma rua, e com uma lacuna entre dois encontros: um para oração e outro para compartilharmos tantas mudanças e  crescimento! 

A vida não é surpreendente?

Sergio Viula

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Comentários

  1. Que legal! O mundo dá tanta volta que a gente fica tonto às vezes.

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  2. É verdade, Åsa. Estou tonto até agora... hehehe

    Beijo,
    Viula

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  3. O mundo dá é cambalhotas às vezes... Mas é ótimo, acima de tudo, encontrar uma mãe tolerante.

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    1. Verdade, Kummitus! Isso foi o mais fantástico!

      Beijo,
      Viula

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