Falecimento do ativista Cláudio Lemos - Grupo Cabo Free

LUTO: 
Faleceu o querido ativista Cláudio Lemos 
Grupo Cabo Free

Nossa homenagem 
a esse ativista histórico de Cabo Frio.
 via Luiz Mott
  
Entrevista: Claudio Lemos

Postado por Noticia G na  Segunda-feira, Dezembro 27, 2010 

Marcadores: Entrevistas


  
Resolvemos inovar desta vez. Para levarmos ainda mais conhecimento e informações para todos vocês nossos queridos leitores, entrevistamos o Presidente do Grupo Cabo Free e Coordenador da Rede LGBT do Interior do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Lemos.

Cláudio é figura conhecida por sua militância em prol dos direitos e causas LGBT. Vejam o que este ativista tem a declarar!

Noticia G: Olá Claudio, obrigado por aceitar conceder a entrevista.

CABO FREE: O Movimento é que deve agradecer a iniciativa do Blog em levar o nosso trabalho ao conhecimento do Público.

Noticia G: Há quanto tempo existe o grupo?

CABO FREE: O Grupo Cabo Free foi fundado em julho de 2004, numa noite fria e chuvosa, durante a abertura do 1º Cabo Free – Encontro de Cultura LGBT de Cabo Frio.

Noticia G: Quem foi o fundador?

CABO FREE: O Grupo nasceu de um evento que teve o mesmo nome, Cabo Free, que foi idealizado e realizado por mim e pelo Rafael Menezes.
  
Noticia G: De que principio partiu a idéia de criar uma ONG LGBT?

CABO FREE: Quando tivemos a idéia de realizar um fim de semana Gay em Cabo Frio não tínhamos noção dos obstáculos que iríamos enfrentar. Nossa intenção era meramente comercial. Já realizávamos a Festa Animatrix e havíamos trabalhado com alguns dos melhores DJs da Cena Gay carioca (Ana Paula, Robix, Marcus Vinicius, etc.) e por esse motivo a Festa já era um tremendo sucesso. As pessoas me conheciam por ter montado a Boite Haram em 2002 e confiavam no meu trabalho como produtor. Então nós pensamos “Porque não fazer um fim de semana inteiro com festas de dia e de noite juntando os gays locais e turistas?”. Fizemos uma pesquisa sobre o turismo GLS, colocamos uma pasta embaixo do braço e fomos batendo de porta em porta pedindo apoio para realizar o Cabo Free. Tivemos sucesso na capitação de recursos, no fechamento das parcerias e chamamos a atenção de toda a mídia da região para o primeiro evento gay de Cabo Frio. Mas logo começaram os problemas: a Prefeitura queria ajudar, mas tínhamos que mentir dizendo que não ajudaram, os religiosos protestaram com panfletos e publicações onde éramos (nós LGBT) chamados de peste, pedófilos e outras maldições. Mas o pior estava por vir. Ás vésperas do Encontro foram colados cartazes pela cidade assinados por um tal “Grupo de Extermínio de Homossexuais”. Nos cartazes fomos ameaçados de morte caso o evento viesse a acontecer – “Cabo Frio não será o celeiro de gays e sim seu abatedouro” – Dizia o tal cartaz. Com isso os líderes militantes de várias partes do Brasil que estavam em Cabo Frio , participando das palestras que faziam parte da programação, nos cobraram uma reação e se posicionaram no sentido de nos ajudar a reagir a tais absurdos. Cláudio Nascimento, Oswaldo Braga e a saudosa Hanna Suzart foram os padrinhos daquele Movimento meio que nascido no susto.
  
Noticia G: Quem faz parte da atual diretoria? São todos gays?

CABO FREE: Na atual Diretoria todos são gays. Amigos e parceiros de luta que confiam no trabalho realizado pelos ”cabeças” da ONG. Hoje , não tenho dúvidas de que é necessário dedicação exclusiva para que o trabalho de uma ONG venha a ter sucesso. Temos lésbicas e travestis em nosso Conselho de ética e também participando em nossas atividades e reuniões.
  
Noticia G: Vocês já tiveram que fazer intervenções em casos de gays não assumidos que tivessem problemas com a família. Como foi?

CABO FREE: Muitas vezes. Houve casos de pais que perseguiram os namorados dos filhos, que expulsaram os filhos de casa, espancaram. Não podemos orientar diretamente os pais nesses casos. O que fazemos e tentar amenizar a dor desses jovens dando apoio.
  
Noticia G: Existem muitas coisas a serem estudadas e trabalhadas na sociedade mundial enquanto uma sociedade capitalista homofóbica quase que “genéticamente”. Você crê verdadeiramente que conseguiremos mudar a mentalidade discriminativa do Brasil?

CABO FREE: Esse é um trabalho que levará tempo, temos avançado gradativamente, no entanto quanto mais avançamos, percebemos as novas necessidades e enfrentamentos que vamos encarar. Até hoje o racismo não foi inteiramente apagado da sociedade. Porém hoje é vergonhoso assumir o racismo. Houve um tempo em que era comum usar pejorativos para denominar os irmãos negros, isso não é mais uma realidade. Existem leis que punem tais ações. A lei cria uma cultura. O cidadão já nasce hoje sabendo que é ilegal ser racista. Que não é uma coisa certa nem bonita. Por esse motivo precisamos tanto da aprovação da lei que criminaliza a homofobia. Vivemos em um país que tem avançado positivamente no combate a homofobia. Governos federal, estadual e até municipal atuam como parceiros em nossa luta, no entanto a sociedade ainda rejeita nossa condição e teima em nos julgar pelo que fazemos de mais intimo, esquecendo nossas habilidades profissionais, nosso caráter e nossa postura.

 Noticia G: Sabemos que o Brasil não é só habitado pelo “meio”, o quê a CABO FREE faz de projetos para benefícios gerais da sua microregião?

CABO FREE: Acredito que nosso Projeto de divulgação turística é o que mais beneficia a população em geral. Trazendo o turista GLS para Cabo Frio fortalecemos o comércio e a Rede Hoteleira local, colaborando na geração de empregos e renda para o Município.
  
Noticia G: A internet é sua aliada na campanha contra homofobia, como vocês à utilizam para apresentar a ONG para a população em geral?

CABO FREE: Estamos por toda parte. 3 Perfis no Orkut, Twitter, Fotolog, Picasa web, Etc. Criamos pequenos vídeos em formato de campanhas que são divulgados através do You tube e que já somam hoje mais de 1 milhão de visitas. Tais vídeos funcionam como um canal entre o Grupo e o resto do país. Recebemos solicitações e notícias de que já foram exibidos durante Congressos, Encontros, Reuniões, Audiências, Universidades e escolas em várias partes do Brasil. Até mesmo para Ministros de Estado e Governadores. Vale a pena dar uma olhada.

 Noticia G: Estamos sempre expostos a muita discriminação o tempo todo, você já sofreu algum tipo que seja relevante ressaltar?

CABO FREE: Passamos por isso todo o tempo. Na escola, no trabalho, na rua, na família, no Restaurante quando notamos os olhares das pessoas em volta. Um jovem negro, judeu, gordinho, deficiente é discriminado pelos colegas, mas ao chegar em casa tem o carinho dos pais, na maioria das vezes isso não acontece com um jovem LGBT. Todos os LGBT certamente já sofreram e sofrem diariamente com a discriminação. Alguns não se incomodam, ou fingem não se incomodar para não se aborrecer. Muitos jovens deixam a escola por não suportarem as perseguições e humilhações diárias a que são submetidos. Uma das principais causa de suicídios entre jovens é o preconceito.



Noticia G: O que você acha das Paradas LGBT no Brasil atualmente?

CABO FREE: As vejo com muito orgulho e felicidade. O país é campeão mundial na realização dessa atividade político-carnavalesca. Muitos criticam esse tom festivo de micareta que as pessoas hoje buscam nas Paradas. Eu acredito que para se mudar a política é preciso também mudar a forma de se fazer política. Essas manifestações nos dão visibilidade, mas é muito importante que os Grupos que realizam hoje Paradas em todos os lugares do Brasil, tenham a preocupação em realizar outras ações durante o decorrer do ano.
  
Noticia G: Vocês realizam vários projetos sociais, falem um pouco para nós destes projetos.

CABO FREE: O Grupo realiza dois grandes eventos anuais – o Cabo Free – Encontro de Cultura LGBT (Premiado pelo Ministério da cultura em 2009 como melhor evento cultural LGBT do Brasil) e é encerrado com a Parada do Orgulho LGBT que acontece em setembro e o Bloco Carnavalesco Cabo Free que desfila na 2ª Feira de Carnaval. Ambos acontecem há 6 anos e reúnem multidões. Mas além disso o Grupo realiza outras ações importantes como campanhas de prevenção às DST/AIDS, Campanhas de divulgação do Turismo GLS na cidade, Palestras em Escolas e Universidades, Encontros, Reuniões, Mostras de Filmes, Festas beneficentes etc.
  
Noticia G: Porque uma Rede LGBT do interior do estado?

CABO FREE: Para fortalecer os Grupos existentes e em formação nas cidades do Interior.
  
Noticia G: Qual a filosofia básica da Rede?

CABO FREE: “Um mais um é sempre mais que dois.” Nossa idéia é incentivar e motivar os Membros da Rede na realização de ações simples, mas que refletem positivamente no trabalho e na visibilidade dessas ONGs. Dividir nossa experiência e ouvir e aprender com o que tem sido feito pelo estado a fora. Com menos de um ano de existência a Rede já realizou 3 importante ações: uma campanha contra a homofobia com a participação de figuras ilustres como o Carnavalesco Milton Cunha, o Promoter David Brasil, as ex BBBs Thalita Lippe e Bianca Jahara, o modelo Marcos Grabowsky (Mr Gay 2008) e a Drag BBB10 Dimmy Kieer, que autorizaram o uso de sua imagem em Folders e cartazes com o Tema “Juntos Contra a Homofobia”, a primeira pesquisa sobre Homofobia realizada no interior do RJ (em anexo) que traçou um perfil do preconceito sofrido por gays e lésbicas no interior e o Festival de Cinema + Bate Papo do Interior Fluminense que vem sendo realizado em várias cidades desde janeiro e segue até o final do mês de março.
  
Noticia G: Você acredita que a polêmica é a melhor arma para uma militância inconsciente de toda população?

CABO FREE: Eu acredito que para atingir nossos objetivos temos que focar naquilo que queremos mostrar para a população. Tenho repetido isso sempre que tenho oportunidade de falar para as pessoas. O fato de sermos diferentes não nos faz melhores nem piores que ninguém. Não queremos ter razão, não queremos estar certos. Queremos ser felizes ao lado de quem amamos.

 Noticia G: Quais são os planos futuros do CABO FREE?

CABO FREE: O ano de 2010 foi um ano muito produtivo para o Grupo e para a Rede do Interior. Trabalhamos sem parar desde Janeiro. Retornamos com nossas reuniões mensais, estamos prestes a testemunhar a instalação do centro de Cidadania LGBT Cássia Eller – um convênio entre o Governo do Estado e a Prefeitura local - vamos realizar o 2º Encontro de ONGs do Interior em Maio e já estamos trabalhando na pré-produção do 7º Cabo Free que acontecerá entre os dias 01 e 07 de setembro. Estamos elaborando um plano de ações junto aos comerciantes locais para criação de um selo para estabelecimentos simpatizantes, vamos realizar no final do ano uma exposição fotográfica sobre os 7 anos do Grupo, vamos produzir um documentário em Cabo Frio sobre os diferentes pontos de vista da população sobre a homossexualidade e temos ainda a Festa Glee, as Mostras de Vídeo, patrocinadas pelo Ministério da Cultura, em Cabo Frio e Arraial do Cabo junto com o Grupo Arraial Free, além de outros planos ainda em processo de construção.
  



 Noticia G: Se alguém quiser ajudar o CABO FREE como faz?

CABO FREE: Nossas reuniões acontecem sempre na primeira 5ª feira do Mês – às 18:30 h na Casa dos 500 anos – no Bairro Portinho em Cabo Frio. Nosso email é grupocabofree@hotmail.com e telefone: 22 9937-4609 9212-4797.

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