Emanuel e a grávida



Aconteceu ainda há pouco.

Emanuel vinha de um longo dia de trabalho. Morto de fome, já havia me ligado dizendo que jantaria em casa. Seu plano foi interrompido quando uma mulher grávida começou a passar mal dentro do ônibus. Todo mundo no ônibus viu que a mulher estava passando mal, porém ninguém se propôs a ajudá-la. Emanuel, então, desceu do ônibus com ela ali, sem a ajuda de mais ninguém. Ligou para a emergência, mas não conseguiu falar. Deixou a mulher aguardando no ponto, enquanto foi buscar ajuda de uma patrulha policial próxima. Os policiais levaram os dois para o Hospital Salgado Filho (hospital que tem emergência), no Méier, bairro de classe média na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro.

Chegando lá, o hospital informou que não podia atender a coitada da mulher, porque não tem maternidade. A mulher ficou desamparada:  Ela não tinha plano de saúde e o marido não estava ali. Emanuel me disse que ficou pasmo quando soube que ela sequer havia feito pré-natal até então.

Não podendo fazer mais nada, ele ajudou a mulher a falar com o marido pelo telefone. E ela ficou ali na entrada do hospital aguardando o esposo chegar.

Emanuel voltou para casa perplexo por vários motivos:

1. Ninguém se sensibilizou em ajudar a pobre mulher.
2. O telefone de emergência não funcionou.
3. O hospital não titubeou em recusar a entrada dela, mesmo que fosse apenas para transferi-la de ambulância para outro lugar.

Eu, além de tudo isso, me pergunto: Onde estavam os supostos 'filhos de deus', os ditos 'salvos', sejam eles evangélicos ou católicos? Num país onde os ateus perfazem apenas 1% da população, às 19h num dia de trabalho, o ônibus devia estar cheio de religiosos, mas foi o VIADO que NÃO ACREDITA EM DEUS(ES) que ajudou a mulher grávida. Onde estavam os que combatem o aborto? Esses mesmos que falam tanta bobagem quando se trata de um feto acéfalo, por exemplo, mas são incapazes de apoiar uma grávida sofrendo ao vivo e a cores.

Alguém pode se perguntar: Se o Emanuel não acredita em recompensas futuras, o que ele espera em troca disso? Nada. Foi apenas um ato de humanismo. E o que torna esse ato ainda mais genuíno é que não espera nada em troca. É humanismo por si e sem sequer fazer essa reflexão. Fui eu que levantei isso depois que ele me contou a história.

Fica aqui a lição: mulheres grávidas, não andem sozinhas por aí. Ah, e garantam-se com um bom plano de saúde antes de engravidar, porque senão vocês podem morrer na porta do hospital. Antes que eu esqueça: Não contem com a ajuda de deus, deuses ou seus auto-proclamados representantes. A primeira categoria não existe mesmo e a segunda - salvo raríssimas e geralmente nada ortodoxas exceções - não fede nem cheira. 

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