Homossexuais sul-africanas sofrem com onda de ‘estupros corretivos’

Homossexuais sul-africanas sofrem com onda de ‘estupros corretivos’

4/7/2011 13:43,  Por BBC Brasil



Fonte da Foto:  Blog My Evil Way

Estupro e assassinato de ex-jogadora de futebol, entre outros casos, provocaram comoção no país

Uma onda de casos de estupro e assassinatos cometidos por homens contra mulheres homossexuais, aparentemente com o objetivo de “corrigir” suas orientações sexuais, está assustando a África do Sul.

Segundo estimativas, pelo menos 31 mulheres já morreram no país vítimas desse tipo de ataque nos últimos dez anos.

Mais de dez homossexuais mulheres são estupradas – por indivíduos ou coletivamente – por semana apenas na Cidade do Cabo (sul do país), segundo a Luleki Sizwe, uma organização de apoio a vítimas de violência sexual.

Muitos outros casos não são relatados ou porque as vítimas têm medo que a polícia as ridicularize ou que seus agressores voltem a procurá-las, explicou Ndumie Funda, fundadora da Luleki Sizwe.

“Os casos reportados pela imprensa não são nem a ponta do iceberg. Lésbicas têm sido atacadas em municípios sul-africanos diariamente”, disse.

Vítimas

Noxolo Nkosana, 23, da Cidade do Cabo, foi vítima recentemente desse tipo de agressão.

Certa noite, quando retornava para casa com sua namorada, ela foi esfaqueada por dois homens – um deles morador da mesma comunidade que ela.

“Eles estavam andando atrás de nós. Começaram a me xingar e a gritar: ‘Ei, sua lésbica, vamos te mostrar’”, relatou Nkosana à BBC.

Antes que pudesse reagir, ela foi atacada com uma faca em suas costas – dois golpes rápidos, que a derrubaram. Semiconsciente, sentiu mais duas facadas.

“Tinha certeza de que eles iam me matar.”

“Eles estavam andando atrás de nós. Começaram a me xingar e a gritar: ‘Ei, sua lésbica, vamos te mostrar’.“

Noxolo Nkosana, vítima

Em abril, Noxolo Nogwaza foi estuprada por oito homens e morta no município de KwaThema, perto de Johanesburgo. Sua face e sua cabeça ficaram desfiguradas por conta das pedradas que recebeu. Ela foi atacada também com pedaços de vidro.

Em 2008, um outro caso teve forte repercussão. A ex-jogadora de futebol e ativista dos direitos homossexuais Eudy Simelane foi estuprada por uma gangue e esfaqueada 25 vezes no rosto, no tórax e nas pernas. Dois dos acusados foram condenados pela Justiça, e outros dois foram absolvidos.

Relatos de vítimas que foram ridicularizadas por policiais também são constantemente relatados pela comunidade gay do país.

“Alguns policiais dizem: ‘Como você pode ser estuprada por um homem se não se sente atraída por eles?’ Eles pedem que você explique como se sentiu ao ser violentada. É humilhante”, contou Thando Sibiya, homossexual da comunidade de Soweto, em Johanesburgo.

Ela disse também conhecer duas pessoas que denunciaram terem sido estupradas à polícia, mas desistiram do caso por terem sido maltratadas pelas autoridades.

‘Não-africano’

Para alguns, a origem do problema está nos bolsões conservadores da sociedade africana que não aceitam a homossexualidade, em especial entre mulheres.

“As sociedades africanas ainda são patriarcais. Ensinam às mulheres que elas devem se casar com homens, e qualquer coisa que escape disso é vista como errada”, declarou Lesego Tlhwale, do grupo de defesa dos direitos dos homossexuais africano Behind the Mask.

“Alguns policiais dizem: ‘Como você pode ser estuprada por um homem se não se sente atraída por eles?’ Eles pedem que você explique como se sentiu ao ser violentada. É humilhante.“

Thando Sibiya, homossexual de Soweto

“O casamento entre duas mulheres é visto como algo não-africano. Alguns homens se sentem ameaçados por isso e tentam ‘consertar’ (a situação).”

Ela notou que as mulheres que foram mortas nos ataques recentes são descritas como masculinizadas.

“(Os agressores) dizem que elas estão roubando suas namoradas. É um senso distorcido de posse e uma necessidade de proteger sua masculinidade.”

A África do Sul é o único país do continente – e um de apenas dez no mundo – que legalizou o casamento homossexual. A Constituição proíbe especificamente qualquer tipo de discriminação por orientação sexual.

Mas, na prática, o preconceito permanece comum.

Nas ruas de Johanesburgo, é fácil encontrar homens que apoiem a ideia do “estupro corretivo”.

“É como se (as lésbicas) estivessem dizendo a nós, homens, que não somos bons o suficiente”, opinou Thulani Bhenu à BBC.

Registros

Pouquíssimos casos de agressões contra lésbicas resultaram em condenações judiciais.

Ninguém sabe ao certo quantos dos 50 mil casos de estupro reportados anualmente na África do Sul são cometidos contra homossexuais, já que a orientação sexual das vítimas não é registrada.

Mas, após a morte de Nogwaza – e de um abaixo-assinado com 170 mil assinaturas de todo o mundo pedindo o fim dos “estupros corretivos” – o Departamento de Justiça local começou a montar uma equipe cuja missão é desenvolver uma estratégia de combate a crime homofóbicos.

Também está em debate a adoção de penas mais duras para casos em que a orientação sexual da vítima seja um fator determinante no crime.

Noxolo Nkosana teme ser atacada novamente, mas se recusa “a voltar para o armário”, ou seja, de fingir que é heterossexual.

“Fizeram de mim uma vítima em meu próprio bairro, mas não vou deixar que eles vençam?, disse. ?Não podem impedir que eu seja quem eu sou.”

Lesego Tlhwale, do grupo Behind the Mask, diz que as homossexuais estão, em geral, bastante preocupadas.

“Estamos observando um aumento nos ataques contra lésbicas nos meses recentes. Todas estão com medo de ser a próxima vítima.”


Fonte: Correio do Brasil


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COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO

O machismo é uma desgraça. Quando somado à homofobia, é totalmente desumano. Ser mulher não deve ser nada fácil, especialmente levando-se em consideração alguns códigos, hábitos e valores culturais construídos sobre a base (falsa!!!) da superioridade masculina. 

Ser mais forte não é necessariamente ser mais evoluído. Caso contrário, o humano seria um dos bichos menos evoluídos do planeta. Elefantes são mais fortes, rinocerontes são mais fortes, hipopótamos são mais fortes. O homem (refiro-me aos portadores de pênis) é visto como mais forte do que a mulher. Será que sempre é? Nem sempre. Na verdade, há mulheres que - como as feras domadas - desconhecem a sua força. Embarcaram no mito da superioridade masculina, na fábula do direito do homem ao domínio sobre a mulher. Fábula que recorre frequentemente ao sagrado para se justificar. E esses mesmos homens que protagonizaram a construção dos costumes religiosos, das leis e/ou lideraram seus grupos sociais prepararam tudo para que a mulher nunca se livrasse desse jugo.

Felizmente, o movimento feminista, entre outros, abriu clareiras nessa selva de machos. Felizmente, a emancipação da mulher vai ganhando terreno dia após dia em todas as direções, inclusive no 'universo' lésbico, que não deixa de ser feminino só porque deseja a fêmea.

São os machos ressentidos de sua irrelevância para o prazer dessas mulheres que reagem com sua fúria imbecil e inescrupulosa. O pênis do qual eles tanto se gabam não é mais necessário. Não faz a mínima falta para milhões de mulheres que amam outras mulheres. Escândalo? Só para aqueles que pensam que a glande leva alguma vantagem sobre o grelo. Quão superficiais são esses patrulheiros do desejo alheio!

A África do Sul se destaca no mundo inteiro por uma Constituição Federal justa e exemplar no que diz respeito aos direitos humanos e à igualdade de todos os seus cidadãos, sem discriminação de qualquer espécie, inclusive de orientação sexual. Mas a cultura do preconceito ainda leva tempo para ser modificada. Enquanto isso, nada mais apropriado do que o braço da lei no cangote desses "tarados" disfarçados de moralistas. E, acima de tudo, proteção para essas mulheres. Aliás, as próprias mulheres lésbicas, ou não, precisam unir-se e lutar contra esses estupradores homofóbicos, porque o machismo que os move atinge todas elas, sejam lésbicas, heterossexuais ou bissexuais.

"Estupro corretivo" equivale a dizer que o tarado está a serviço da moral. Isso é tão contraditório quanto dizer que o ódio é pai do amor. Talvez o profeta Gentileza faça bem em nos lembrar que "gentileza gera gentileza". Se os brutos não sabem conter sua brutalidade devem ser gentilmente encaminhados à justiça para receberem as penalidades da lei.

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