"Tá faltando homem..."


Você já deve ter ouvido alguém dizer essa frase: "Tá faltando homem no mercado...". Geralmente, alguma mulher frustrada por não ter quem a ame. Outras vezes, alguém que viu um homem lindo e depois percebeu que ele era gay. Outras ainda, por estupefação diante de uma manifestação gay de grandes proporções. Quem diz isso geralmente são pessoas que atribuem à existência dos homossexuais sua própria falta de sorte ou talento para conquistarem alguém. Consolam-se como se a resposta para a causa de tanta frustração fossem os gays. Algo do tipo: "Se houvesse homens heterossexuais talvez eu tivesse um para chamar de meu."

Não é bem assim! Vamos raciocinar um pouco. Sim, porque esse tipo de declaração é fruto de pura ignorância e/ou falta de reflexão.

1. Se os homossexuais constituem 10% da população mundial, aproximadamente;

2. E se entre esses 10% estão computados tanto os gays como as lésbicas;

3. E se dentre os gays que estão computados nesses 10% alguns TERÃO  mulheres e, dentre a lésbicas, algumas TERÃO homens, mesmo não sendo seu desejo real. Pode ser por questões sociais ou políticas...

Então, os homossexuais (gays e lésbicas) não causam qualquer impacto significativo sobre o saldo negativo do casamento heterossexual.

Qual será, então, a razão porque tantas mulheres reclamam da solidão dizendo que está faltando homem? A resposta é simples:

Os homens que desejam realmente manter um relacionamento estável com uma mulher não são a maioria, especialmente entre 18 e 35 anos. Digo isso como fruto de observação. Se houver alguma pesquisa que o confirme ou desminta, terei prazer em lê-la. Nessa faixa etária, muitos homens querem apenas sexo fácil e sem compromisso. 

Isso, porém, não quer dizer que TODAS as mulheres conseguirão um homem desses nem mesmo por uma noite. Isso se dá por um motivo muito simples. Até mesmo para uma transa de uma noite só, os homens querem mulheres com um certo perfil: não obesa; cabelo bem tratado; cheirosa; bem humorada; desencanada sobre sexo, mas sem obsessão, ou seja, sem demonstrar que está desesperada; sem expectativas de manter um relacionamento dali para a frente; não pegajosa, ou seja, não do tipo que liga toda hora para marcar de novo, etc. Quando uma mulher falha numa dessas coisas, os homens comentam com os amigos e queimam o filme dela. Depois disso, fica mais difícil ela conseguir sair com alguém daquele círculo masculino dali para a frente. Resta saber se vale a pena mesmo sair com um homem desses. Alguns deles mantém essa lista de exigência e nem estão com "essa bola toda." 

Esse tipo de homem - é bom que fique claro - não é o tipo que deseja casamento. E se a mulher pensar que vai conseguir fisgá-lo provavelmente ficará frustrada e vai acabar repetindo que está faltando homem no mercado quando, na verdade, o que está faltando é vontade de manter relacionamentos estáveis por parte desses mesmos homens.

Além desse tipo predador que só quer sexo por uma noite, existem aqueles que são inseguros. A mulher tem mais dinheiro, emprego melhor, vida organizada, e ele tem medo de se relacionar com ela, porque não está no mesmo nível social ou cultural. Essas mulheres quando têm amigas do mesmo naipe acabam se reunindo só com as amigas para um café ou para uma balada, porque faltam homens que estejam dispostos e tenham capital financeiro e intelectual para acompanhá-las. É aí que a gente vê aquele grupo de cinco, seis, sete mulheres lindas e poderosas sem nenhum macho alfa em volta. Homem no mercado tem, mas não à altura delas...

E o que dizer daquele homem "família" que namora para casar e casa muito cedo? Ou os que demoram para casar, mas mantém um namoro firme e comprometido com a mesma mulher por muito tempo antes do casamento? Esses geralmente já estão "ocupados". Aí, as solteironas olham para o feliz casal e ficam morrendo de inveja. E canalizam o rancor que muitas vezes nasce desse sentimento "ela-tem-e-eu-não-tenho" contra os homens gays que não têm nada a ver com esse quadro caótico instalado no "universo" heterossexual pelos próprios heterossexuais.

E se serve de consolo, homossexuais também dizem a mesma coisa. Já ouvi muita gente dizer: "Ninguém quer nada sério com ninguém." Ou então: "O pessoal só quer pegação. Relacionamento que é bom, nada."

Isso gera outras perguntas:

Quantas vezes será que esse(a) homossexual jogou fora boas oportunidades só porque o homem ou a mulher que ele(a) desejava não tinha isso ou aquilo. Coisas como altura ("é baixo demais" ou "é alto demais"), peso ("é gordo demais" ou "é magro demais"), cor ("eu gosto de branco"; "eu gosto de negro"), classe social ("é pobre" ou "tem um emprego chinfrin"), idade ("é muito jovem" ou "é muito velho"), etc.

É lógico que a gente precisa combinar. A gente precisa encontrar no outro aquilo que nos atrai, cativa, inspira. E oferecer algo que também o atraia, cative e inspire. Geralmente, as pessoas procuram muito obter o primeiro sem, porém, oferecer o segundo, e depois não sabem porque foi que o "princípe encantando" ou a "princesa encantada" nem olhou para ele(a).

Enquanto isso, o IBGE registra mais de 60 mil casais homoafetivos declaradamente vivendo em união estável no Brasil. Isso não inclui aqueles que estão na mesma condição, mas não dizem, não assumem.

Se 10% da população do Brasil é gay. Isso quer dizer que existem 19 milhões de gays no Brasil, aproximadamente. Se metade desse número for de lésbicas, existem 9 milhões e meio de lésbicas no Brasil. E, em contrapartida, 9 milhões e meio de gays no Brasil.  Claro que as coisas não são tão exatas assim, mas for the sake of the argument, vamos lá. Essas pessoas vão buscar parceiros dentro desse mesmo grupo, sem interferir nas possibilidades dos heterossexuais, exceto no caso dos enrustidos que se casam com alguém do outro sexo pelos mais diversos motivos. Isso quer dizer que alguns homens e mulheres heterossexuais ainda se casarão graças a esse comportamento estranho de homossexuais que não se assumem, muitas vezes nem para si mesmos.

Sobram, portanto, 171 milhões de bissexuais (provavelmente a maioria das pessoas) e de heterossexuais de fato. É muita chance de encontrar alguém. A pergunta é: quais são suas exigências? E o que você oferece em troca? Como você espera que ele ou ela seja? Como você é? Isso desempata muito jogo na disputa por um parceiro.

Agora, pode ser que em alguns lugares devido a fatores de ordem social, política, econômica, etc. haja realmente mais mulheres do que homens. Não terá sido por isso que a bigamia ou a poligamia acabou sendo incorporada em certos lugares? Homens jovens morrendo aos montes nas guerras e mulheres sobrando em casa? De novo, nada ver com os gays ou as lésbicas. ;)

Talvez o grande concorrente das mulheres seja exatamente a violência típica dos homens. Eles se matam mais, se arriscam mais, se envolvem mais em conflitos, e por isso acabam morrendo em maior número. Nem gays nem lésbicas são concorrentes, porque o que eles desejam é alguém igual. E alguém igual (homossexual também) já é, por assim dizer, "carta fora do baralho". Essa pessoa jamais seria plenamente feliz com alguém do sexo oposto, por conseguinte nem entra no jogo. 

O que impede muitas mulheres de realizarem o sonho do casamento é portanto:

1. Desinteresse de muitos homens por relações estáveis;

2. Exigências pessoais que dificilmente serão atendidas;

3. Fatores de ordem social, política e econômica que causam êxodo ou morte de homens;

4. A típica beligerância e ousadia masculina que os coloca mais frequentemente em situação de risco de morte, provocando uma diminuição no número de homens jovens em relação ao de mulheres.



Então, quando você vir um gay ou uma lésbica deslumbrante, não diga "quanto desperdício!" Pergunte-se o que você pode fazer para que a pessoa que você deseja olhe para você e diga: "Acabo de encontrar o que procurava!"

O melhor aliado da felicidade no amor acaba sendo a tranquilidade, a ausência de angústia na busca por alguém. Ir vivendo, conversando, trocando, conhecendo... sendo. Não existe fórmula pronta para se encontrar (ou construir?) um grande amor.



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