Professora transexual: educador não quer discutir homofobia


17 de maio de 2011 



A transexual e professora Marina Reidel discute a homofobia com os alunos da Escola Estadual Rio de Janeiro, em Porto Alegre. Foto: Nabor Goulart/Agência FreeLancer/Especial para Terra
A transexual e professora Marina Reidel discute a homofobia com os alunos da Escola Estadual Rio de Janeiro, em Porto Alegre
Foto: Nabor Goulart/Agência FreeLancer/Especial para Terra

Angela Chagas 


Direto de Porto Alegre


Nesta terça-feira, dia que marca a luta mundial de combate à homofobia, especialistas em educação apontam que os professores têm o desafio de discutir o combate ao preconceito no ambiente escolar. Para a transexual Marina Reidel, professora de artes e ética de um colégio público de Porto Alegre (RS) e mestranda em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o maior problema está relacionado à falta de interesse dos profissionais em discutir o tema. "Eu acho que há uma acomodação, os professores não querem se envolver com esses temas, eles dizem que isso não tem relação com a disciplina deles. Mas precisam entender que isso faz parte das nossas vidas, está nos meios de comunicação, na internet, basta procurar um especialista, uma ONG para levar essa discussão para a escola".


A pós-doutora em Cultura Visual e professora do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jane Felipe, concorda que a escola deve dicutir o tema. "Os professores devem tratar da homofobia desde o começo, nas séries iniciais, para evitar que as crianças cresçam com o preconceito", diz a especialista.


Professora há 20 anos, Marina entende bem do assunto. Quando criança passou pelo mesmo preconceito que ainda está presente em muitas escolas brasileiras. "Desde pequena eu era agredida. Nas escolas que estudei, as equipes de direção não faziam nada para evitar que isso acontecesse, eram negligentes. Uma vez a direção disse que eu era diferente e que, por causa do meu jeitinho, os colegas me agrediam".


Apesar das humilhações que sofreu na escola, Marina decidiu que queria ser professora. Nessa época era conhecida como Mario, nome que ainda leva na carteira de identidade. Em 2006, quando já trabalhava como professora da Escola Estadual Rio de Janeiro há 3 anos, decidiu se afastar um tempo das aulas para assumir a nova identidade. Trocou as calças e camisas pelo salto alto e vestido, fez plástica e retornou para a escola como mulher.


"Os professores prepararam os alunos para a minha transformação, explicaram sobre a transexualidade. Eles estavam com uma expectativa muito grande, mas foi super tranquilo. Fui muito bem recebida de volta, não tive nenhum problema com os pais e os estudantes", afirma. Após a mudança, a professora percebeu que tinha o apoio da comunidade escolar para desenvolver ações voltadas à inclusão das diferenças. "Hoje todos os alunos sabem que eu sou transexual e respeitam muito o meu trabalho na escola".


A partir da iniciativa da ONG Somos, que orienta os estudantes sobre sexualidade e diversidade, Marina começou a dar aulas de ética nas turmas de sétima e oitavas séries para tratar de direitos humanos e respeito às diversidades. "Substituímos a disciplina de ensino religioso pela de ética e cidadania e passamos a tratar da homofobia, do preconceito contra negros, das questões de gênero", explica. Segundo ela, os alunos das outras turmas também participam das discussões por meio de oficinas com especialistas da ONG, que vão até a escola realizar atividades. "Eles adoram as oficinas, porque nós discutimos aquilo que muitas vezes não é falado em casa e que estão presentes no dia a dia deles".


Kits contra homofobia


O Ministério da Educação (MEC) vai oferecer às escolas brasileiras no segundo semestre de 2011 um kit contra a homofobia. Marina participou de um treinamento realizado em São Paulo para representantes de todos os Estados sobre o material, que segundo ela, "é um grande avanço".


De acordo com informações do MEC, um dos vídeos mostra a relação de duas lésbicas na escola. "Acho a iniciativa dos kits importante, mas cabe às secretarias estaduais e ao próprio ministério promover a equidade de gênero nas escolas. As pessoas em geral ignoram como se constitui a identidade de gênero, não sabem que é uma questão histórica. Por isso, é importante que o professor tenha um conhecimento teórico as temáticas", afirma Jane Felipe.


"Essa discussão não pode ser feita na base do improviso. O professor tem que estudar muito porque a principal função dele é ampliar o conhecimento dos alunos. Os governos precisam investir nessa formação continuada para que ele esteja capacitado para lidar com essas temáticas da diversidade", diz a professora da UFRGS.


Para que os educadores se sintam preparados para abordar a homofobia, a Secretaria Estadual de Educação do Rio Grande do Sul começou, em abril deste ano, o trabalho de capacitação de gestores regionais, que irão "multiplicar o conhecimento" nos municípios. Iris de Carvalho, assessora da equipe da Diversidade do Departamento Pedagógico da secretaria, afirma que os professores estão sendo estimulados "a trabalhar a questão de como o ambiente escolar enfrenta a homofobia e como recebe a diversidade".


Iris afirma que no Estado as coordenadorias de educação estão sendo estimuladas a fazer parcerias com as prefeituras, as universidades e as ONGs para a formação dos professores sobre a sexualidade. "Queremos acabar com a lógica de que é só responsabilidade do professor de biologia discutir isso, mas que é uma ação pedagógica planejada por todas as áreas da educação. E que também não é envolve só as temáticas da gravidez e da aids, mas principalmente as questões de gênero".


Na Bahia, onde a Secretaria Estadual de Educação exonerou do cargo na sexta-feira a vice-diretora de uma escola de Salvador que suspendeu um aluno de 11 anos por "indecência" ao fazer carinho na cabeça de um colega, não há uma política específica de combate à homofobia nas escolas. "Não temos uma ação específica, mas geral de que não pode haver discriminação", diz o chefe de gabinete da secretaria, Paulo Pontes. De acordo com ele, após o a atitude "equivocada" da vice-diretora, representantes da secretaria estão realizando reuniões com os educadores para discutir o tema e evitar que ocorram novos casos.


Família


O MEC pretende disponibilizar o conteúdo dos kits para alunos do ensino médio, mas a professora do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero da UFRGS afirma que não só a escola, mas também a família devem promover o respeito às diferenças desde cedo. "Tantos os pais quanto os educadores não devem dizer aos meninos, por exemplo, que se eles tiverem um comportamento diferente do convencionado é porque são 'bichinhas'", diz.


Jane Felipe afirma que desde quando são bebês, as crianças precisam aprender o respeito. "Muitas vezes as famílias ensinam a discriminar, a ter olhar de desprezo aos pobres, negros e homossexuais. A escola sozinha não faz milagre, precisa da parceria e do apoio dos pais", diz a especialista.


A transexual Marina Reidel concorda com a especialista. "As famílias, os professores e a equipe da direção sempre apoiaram o meu trabalho. Tenho orgulho do que conquistei e do que fazemos para promover a inclusão", diz a transexual. "Eu não quero que as pessoas pensem igual a mim, nunca cobrei isso dos meus alunos, eu só quero que eles respeitem as diferenças", conclui.

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