LUIZ MOTT CONFERENCIA EM ARACAJU: 'O Nordeste precisa aprender a conviver com a diferença'





Mott trouxe uma exposição de cartazes de campanhas contra homofobia. 



Infonet - De que forma, então, o homossexual pode contornar essa situação em tais circunstâncias? 


LM - O que fazemos é um apelo à comunidade de gays, travestis e lésbicas para que se acautelem mais: tenham mais cuidado, não levem pessoas desconhecidas para casa, selecionem mais os seus parceiros e, querendo ou não, em uma sociedade como a que vivemos hoje em dia, todos têm que tomar cuidado, sobretudo quem é mais vulnerável. E o homossexual, o gay, a travesti e a lésbica são pessoas muito vulneráveis porque são discriminadas dentro de casa. 


Enquanto o negro, o deficiente e o judeu aprendem em casa a

enfrentar o preconceito, os gays não. Os pais discriminam, espancam, expulsam de casa. 

Infonet - Ainda segundo os dados do relatório, Sergipe registrou nove casosde assassinatos contra homossexuais. Quão preocupante essa estatística é?


LM - Na verdade o número embora pareça pequeno, com nove homicídios contra homossexuais - ou 'homocídios', como eu digo - temos que lembrar que cidades e capitais com maiores populações tiveram menos assassinatos. Por exemplo, o Amazonas, o Ceará, o Rio Grande do Sul, que tem cinco vezes mais a população de Sergipe, tiveram menos que nove assassinatos. De modo que nós estamos vivendo, aqui, em um 'Triângulo das Bermudas'. Os estados mais violentos

contra os homossexuais têm sido a Bahia, Sergipe e Alagoas. Em Alagoas asituação é ainda mais preocupante porque depois da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo, foi o mais violento. Sendo que o estado tem uma população de cerca de 3 milhões de habitantes. O Nordeste tem que aprender a conviver com a diferença, com o respeito. O que nós queremos não é privilégio, queremos direitos iguais, nem menos e nem mais.


Infonet - Os crimes contra homossexuais têm alguma característica específica?


LM - Os crimes contra homossexuais, também chamados crimes homofóbicos, entram na categoria jurídica de crime de ódio. São motivados por alguma condição específica da vítima ou sua origem racial, étnica ou a sua orientação sexual e eles são geralmente cometidos com requintes de crueldade: muitos golpes, muitas facadas, muitos tiros, tortura, e, no caso
dos homossexuais, castração e empalação, ou seja, colocam algum objeto dentro ânus para realmente humilhar, desonrar aquele indivíduo que em vida ostentava um estilo de vida que o assassino considerava descaração, crime ou pecado.


Infelizmente no Brasil ainda não há estatísticas oficiais sobre crimes de ódio. Não se sabe, como nos Estados Unidos e na Europa, quantos indivíduos foram agredidos ou assassinados devido à sua religião ou orientação sexual, etnia, raça etc. É fundamental que o estado, através de suas delegacias municipais, estaduais e federais registrem cada ocorrência policial a orientação sexual do indivíduo para que a punição seja de acordo com a gravidade do crime. Porque se foi um crime de ódio, de raça, sexo ou religião, tem que ter um agravante.


Infonet - O assunto 'homofobia' ainda é muito polêmico. O episódio em que se envolveu o deputado pelo Rio de Janeiro Jair Bolsonaro (durante entrevista a um programa de TV ele fez declarações ofensivas a negros e gays, fato que gerou grande repercussão na internet) mostram que o tema ainda é tabu? Ou esse foi um caso isolado?


LM - Na verdade o deputado Jair Bolsonaro representa um caso extremo, mas há muitos 'Bolsonaros' pelo Brasil afora que também têm ódio, querem espancar, querem discriminar, querem matar o homossexual. Nós queremos que o Bolsonaro
seja severamente punido de acordo com o Código de Ética da Câmara dos Deputados e que sirva de exemplo para que a impunidade não provoque novos 'Bolsonaros anti-homossexuais'.


Infonet - O Projeto de Lei 122 que tem por objetivo tornar crime a homofobia, uma das maiores pautas de reivindicação do movimento gay no Brasil ainda não foi votado. Seria o caso de haver uma maior pressão por parte dos maiores interessados nele?


LM - Apesar dos gays, lésbicas e travestis representarem 10% da população brasileira, aproximadamente 20 milhões de pessoas, a grande maioria ainda vive presa dentro do 'armário' e ainda não teve a consciência e coragem de se assumir publicamente na família, na escola, no trabalho, na vizinhança...



A pressão do movimento homossexual tem sido constante, mas ainda é insuficiente. É necessário que nossos amigos aliados, tais como os heterossexuais, os pais de gays, os amigos de homossexuais, os deputados, os professores universitários, se manifestem apoiando o que não é um
privilégio, apenas o reconhecimento de que gay também é ser humano, que deve ter a mesma proteção dos demais cidadãos.


Infonet - Mas existe um certo mito de que o projeto criaria uma certa 'redoma de vidro' para os gays...


LM - O PL 122, que equipara a homofobia ao racismo, não faz nada mais nada menos que considerar que homossexual é ser humano igual ao negro, ao índio e as demais minorias étnicas. Nós não queremos privilégios. Nos só queremos que, se alguém na rua chama um gay de 'veado descarado' ou se chama 'seu negro descarado' o crime seja igual, que tenha a mesma punição. Nós pagamos impostos, cumprimos os mesmos deveres de cidadania, mas somos tratados como
indivíduos de terceira categoria.


Ninguém escolhe ser homossexual. Até agora não existe nenhuma teoria que explique definitivamente a origem da homossexualidade, de modo que as pessoas, os meninos, as meninas, a partir dos seis anos já se descobrem diferentes, na adolescência afirmam e confirmam a sua orientação sexual e
felizmente a televisão, os jornais, a mídia não discriminam tanto quanto antigamente. Já não há insultos na imprensa, se algum órgão faz algo do tipo ele é punido, mas não é fácil. O fundamental é que a família acolha bem seus filhos, seus parentes homossexuais. Em cada quatro famílias uma tem
algum ente homossexual e também de cada quatro homossexuais um, em alguma vez na vida, tentou suicídio, porque a discriminação é muito forte.

Por Diógenes de Souza

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