Richard Rorty (1931-2007). Uma interessante citação de "Uma Ética Laica".

Vale a pena ler esse texto de Richard Rorty, filósofo contemporâneo falecido em 2007. Atualíssimo!

Richard Rorty

"Bento XVI lamentou-se sobre o fato de que a Igreja tem cada vez mais dificuldade para dizer em que acredita. Em breve, declara o papa, já não será possível afirmar que a homossexualidade constitui um distúrbio objetivo na estrutura da existência humana, como ensina a Igreja católica. A previsão do papa poderia concretizar-se. No campus de minha universidade, condenar a homossexualidade como perverso ou de algum modo imoral, já seria considerado uma manifestação ofensiva de cruel intolerância. O papa tem razão ao sugerir que a pressão por parte de uma opinião pública ultrajada poderia obrigar a Igreja a silenciar sobre o tema da homossexualidade. Espero que seus receios sejam confirmados e que isso ocorra, pois acredito que a condenação da homossexualidade gerou uma considerável e desnecessária infelicidade humana."

"A atitude da Igreja reduziu significativamente a felicidade humana. A contovérsia sobre a homossexualidade suscita uma pergunta essencial sobre a natureza da moralidade: a Igreja tem razão ao afirmar que existe uma espécie de estrutura da existência humana capaz de servir de ponto de referência moral, ou nós, seres humanos, não temos obrigações morais, além de satisfazer nossos desejos atingindo assim a maior felicidade possível? (p. 12,13)

É preciso tornar os homens mais felizes, e não redimi-los, porque eles não são serer degradados, almas imateriais aprisionadas em corpos materiais, almas inocentes corrompidas pelo pecado original. Os homens são, como afirmava Friedrich Nietzsche, animais inteligentes. Inteligentes porque, diferentemente de outros animais, aprenderam como colaborar uns com os outros para poder realizar os próprios desejos da melhor maneira possível." (p. 22)

"A noção de redenção pressupõe uma distinção entre a parte inferior da alma, mortal, e a parte superior, espiritual, imortal. A redenção é o que acontece quando a parte superior triunfa sobre a inferior, quando a razão vence a paixão ou quando a graça derrota o pecado. em grande parte da tradição ontoteológica, a distinção entre a parte inferior e a parte superior da alma é estruturada como distinção entre a parte que se contenta com a finitude e aquela que aspira ao infinito." (p. 23)

"Para os que adotam o ideal utilitarista da maximização da felicidade, o progresso moral consiste em ampliar a faixa de pessoas cujos desejos devem ser levados em conta. Trata-se de fazer aquilo que o filósofo americano contemporâneo Peter Singer define como "ampliar o nosso currículo", aumentar o número de pessoas que consideramos parte de nosso grupo." (...)

"Outro exemplo óbvio da ampliação de nosso currículo é o sucesso recente, parcial, mas encorajador do feminismo. De uns tempos para cá, os homens têm se mostrado mais dispostos a se colocar no lugar das mulheres. Outro exemplo, ainda, é o fato de os heterossexuais estarem mais propensos a se colocar no lugar dos homossexuais, a imaginar como deve ser ouvir dizer que o amor que se sente por outra pessoa é uma perversão repugnante." (p. 27, 28)

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