JEAN WYLLYS fala a revista QUEM sobre as ameaças de morte que recebeu pela internet

Marcha contra a homofobia em São Paulo

Jean Wyllys: “A injúria nunca desaparece na vida de um homossexual”

Deputado federal fala a QUEM sobre as ameaças de morte que recebeu pela internet

CLARA PASSI

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) relatou à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados ter sofrido ameaças de morte por meio de sua página no Twitter e de seu blog na internet. A denúncia foi feita na reunião da comissão na quarta-feira (23).

Em entrevista a QUEM, nesta quinta-feira (24), de seu gabinete em Brasília, Jean afirmou que as agressões, feitas entre sexta-feira (18) e sábado (19), tinham conteúdo homofóbico e são de autoria de grupos de extremistas religiosos. Nos próximos dias ele apresentará um dossiê à polícia.

“Quanto mais público torno isso, mais protegido estarei. As pessoas de bem da sociedade têm que tomar partido. Não vou deixar de caminhar em Copacabana, ir à padaria comprar meu pão”, disse ele.

A principal plataforma do jornalista, gay assumido, que participou da quinta edição do “Big Brother Brasil”, é uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que autoriza o casamento civil entre homossexuais.

O deputado anunciou, em primeira mão, que essa causa será reforçada por uma campanha com artistas, que deverá começar em meados de abril. Jean também é parte da Frente Parlamentar Mista pela Cidadania GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgênero), que será lançada na Câmara na terça-feira (29).

QUEM: Qual era o conteúdo dessas injúrias?

JW: Uma dizia: ‘Aviso que não saia de casa, porque você pode não voltar’. No sábado (19), recebi outra ameaça, pelo meu site: ‘Não vou lhe matar, não preciso, porque todo viado nojento morre de AIDS’. Outras usavam o nome de Deus. Eram injúrias muito violentas, odiosas e constrangedoras, calcadas na homofobia.

QUEM: Como reagiu?

JW: Levei um baque e respondi de imediato no Twitter: ‘Fanáticos religiosos estão me ameaçando de morte. Qualquer coisa que aconteça comigo, direta ou diretamente, as pessoas serão responsabilizadas e principalmente os mentores dessas pessoas’. Daí, me bloquearam e não pude mais responder àqueles perfis. Um quarto perfil escreveu: ‘Se esse país se respeitasse, sua cabeça e de seus iguais estariam penduradas no poste’. Intensificaram-se os ataques violentos a mim em blogs de líderes religiosos fanáticos. Começou uma campanha para me transformar em inimigo da comunidade cristã e não em inimigo da intolerância, como sempre fui.

QUEM: Tomou algum cuidado no seu dia a dia, passou a andar com seguranças particulares?

JW: Não pedi seguranças e nem pedirei. Isso mostraria que estou intimidado. Decidi trazer isso a público porque quero deixar claro que há um movimento para me silenciar, me neutralizar aqui dentro (na Câmara). Há uma ação orquestrada de líderes religiosos para me silenciar.

QUEM: Está com medo?

JW: Ler essas agressões dá uma dor profunda. Dói pensar que alguém nutre ódio por você. E ainda mais em nome de um Deus que deveria ser um Deus de amor. Essas agressões têm efeito amedrontador, mas me fortalecem. Não vou dar uma de durão. Isso me dói e num primeiro momento me desestabiliza, mas reacende a chama dentro de mim de que estou no caminho certo.

QUEM: Como sua família reagiu?

JW: Minha mãe e meu irmão ficaram muito assustados, pois leram sobre as ameaças na internet. Eles me ligaram imediatamente. Eu pedi para que não se preocupassem, pois nada vai acontecer.

QUEM: O que te dá essa certeza, Jean?

JW: Nada. Mas tenho certeza de que quanto mais público torno isso, mais protegido estarei. As pessoas de bem da sociedade têm que tomar partido. Não vou deixar de caminhar em Copacabana, ir à padaria comprar meu pão.

QUEM: Já procurou a polícia?

JW: Estamos preparando um dossiê, imprimindo todos os ataques. Vou encaminhar uma cópia a Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) (presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara) para que ela leve ao Presidente da Câmara (Marco Maia PT-RS). Nos próximos dias, vou encaminhar à delegacia de crimes virtuais.

QUEM: Antes de virar deputado, você já havia sofrido tamanha demonstração de homofobia?

JW: A homofobia é algo que acompanha o gay desde muito cedo. A primeira vez que sofri uma injúria foi aos 6 anos. Morava na periferia de Alagoinhas, na Bahia. Minha mãe me deu dinheiro para que eu comprasse pão na venda. Estendi a mão sobre o balcão e pedi seis pães. Falei com a concordância correta e o homem me perguntou: ‘Você é viado ou estudado?’. Todos riram e fiquei muito constrangido, voltei para casa tremendo. Foi a primeira vez que ouvi palavra ‘viado’ e percebi pelas risadas que ‘viado’ era algo que eu não deveria ser, que não era certo. Aos 12 anos, ainda em Alagoinhas, estava indo vender algodão doce e um cara me deu um murro. Eu sempre tive esse jeito, era um menino delicado. Fui conquistando meu espaço à custa de muita informação. A injúria é um horizonte que nunca desaparece na vida de um homossexual. Fico feliz de a novela das 8 (“Insensato Coração”) colocar a homofobia como marketing social.

QUEM: Como está articulando a aprovação do casamento civil entre homossexuais?

JW: Convidei as duas deputadas que conseguiram a aprovação do projeto de lei na Argentina que garantiu o casamento civil e também o vereador Pedro Zerolo, da Espanha, para uma grande campanha que meu gabinete está articulando. Está rolando em paralelo ao meu PEC um movimento da sociedade civil para uma campanha de artistas favoráveis ao casamento civil homossexual. Convidamos grandes artistas – homo e heterossexuais – para se juntar à causa, pois isso funcionou muito bem na Argentina. Wagner Moura já se colocou à disposição. Quero convidar Adriana Calcanhotto e Susana Moraes, pois as admiro, embora respeite a discrição delas. Chamarei também os casais André Piva e Carlos Tufvesson e Bruno Chateaubriand e André Ramos. Tem gente do primeiro time da Globo. Quando levantarmos fundos, vamos gravar uma campanha de TV, internet e fazer camisetas. Vamos soltar isso em meados de abril.


Comentários

  1. Os canalhas da religião mantêm-se fiéis ao seu modus operandi. É bom que as pessoas de bem abram os olhos e tratem de separar o trigo da civilidade e boa cidadania do joio do fanatismo religioso e da intolerância odiosa.
    Essa corja fanática e criminosa nunca deveria ter acesso a instituições de governação. Afinal o Brasil não é um estado laico? Que fazem esses pulhas infames nos corredores do poder?

    Jean Wyllys está certíssimo e agindo de forma exemplar!

    Beijos

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  2. Mandrag, concordo contigo em gênero,número e grau!!!

    Abraço, querido!
    Sergio Viula

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