A sodomia no pensamento de Sade: Filosofia na Alcova



COMENTÁRIO DESTE BLOGUEIRO:

O Marquês de Sade

Donatien Alphonse de Sade nasceu em dois de junho de 1740.Viveu setenta e quatro anos, morrendo em 2 de dezembro de 1814. Escreveu e fez muita coisa polêmica, especialmente atacando o clero e a religião. O texto que eu coloco abaixo foi retirado de sua obra A Filosofia na Alcova.


"A Filosofia na Alcova" (La Philosophie dans le boudoir) apareceu pela primeira vez em 1795.em dois volumes ilustrados. Constitui o mais expressivo dos escritos do Marquês nas práticas do vício. É uma antologia da libertinagem.

É óbvio que nos dias de hoje substituiríamos diversos termos aqui, entre eles o termo vício para a prática do amor entre iguais. Vale lembrar que Sade muitas vezes utiliza a terminologia demonizante da igreja para ridicularizar suas pretensões à verdade. 

Deixando de lado o anacronismo de certos termos, o texto é incrivelmente vanguardista e libertário!

 Vale a pena ler.

Divirta-se com o Marquês, então... ;)

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Mas, e a sodomia, e este pretenso crime que atraiu o fogo do céu sobre as cidades que se tinham entregues a ele? Não é ela uma depravação tão grande que qualquer punição pareceria sempre pequena? 

É doloroso ter que censurar a nossos antepassados os assassínios judiciários que cometeram a esse pretexto. É possível ser tão bárbaro a ponto de ousar condenar à morte um desgraçado indivíduo cujo único crime é não possuir os nossos gostos? Trememos ao imaginar que, há apenas quarenta anos, a estupidez dos legisladores chegava a isto. 

Consolai-vos, cidadãos! Tais absurdos não voltarão! A sabedoria de vossos legisladores é um a garantia. Inteiramente esclarecidos sobre a fraqueza de certos homens, sabemos perfeitamente hoje que um tal erro não pode ser criminoso. A natureza não teria dado tão grande importância ao fluído que corre em nossos rins para, em seguida, se irritar com o caminho particular que lhe quiséssemos dar. Que crime poderia haver nisso? Não seria, seguramente, o de o colocar neste ou naquele lugar; a menos que se sustentasse que as partes do corpo não são todas iguais e que existem umas puras e outras imundas. Mas, como é impossível sustentar tal absurdo? 

O único delito no caso seria o da perda da semente! Ora, pergunto-vos, é lá verossímil que esta semente seja tão preciosa que não a possamos perder sem que pratiquemos um crime? Se isto fosse verdadeiro, permitiria ela que tais perdas se verificassem todos os dias, quer ao sonharmos, quer ao gozarmos de uma mulher gravida? 

É impossível imaginar que a natureza nos desse a possibilidade de cometer crimes que a ultrajassem. Ela não pode aceitar que os homens destruam os prazeres que a ela pertencem, pois então seríamos mais fortes do que ela. Mergulhamos num abismo de absurdos quando abandonamos o facho da razão; tanto faz gozar uma mulher de um modo como de outro; é indiferente gozar de mulher ou de macho. Todas essas inclinações foram postas na alma humana pela natureza, e não a podem ofender. A sodomia é um vício de organização e em nada contribuímos para semelhante organização. 

Desde a mais tenra data, há meninos que sentem essa inclinação e que nunca se corrigirão. As vezes é fruto da sociedade, mas mesmo nesse caso pertence à natureza; sob todos os aspectos, é obra da natureza e em qualquer caso o que ela inspira deve ser respeitado pelos homens. Se, através de um recenseamento mais exato, verificássemos que este gosto é mais profundo que o outro, que esses prazeres são mais vivos, e por isso mesmo seus adeptos são mais numerosos do que seus inimigos, não seria possível concluir que, longe de ultrajar a natureza, esse vício serviria seus desígnios, e que ela pouco se importa com a reprodução como tolamente acreditam? 

Percorrendo o universo encontraremos numerosos povos que desprezam a mulher. Alguns só se servem dela quando têm absoluta necessidade de um herdeiro que os substitua. O hábito que têm os homens de viverem juntos nas repúblicas, tornará esse vício cada vez mais comum, mas nem por isso perigoso. Os legisladores da Grécia não o teriam introduzido na república se assim o julgassem. Pelo contrário, achavam-no necessário a um povo guerreiro. Plutarco nos fala com entusiasmo do batalhão dos amantes e dos bem amados. Só eles defenderam com coragem a liberdade da Grécia: a pederastia cimentou a associação dos irmãos de armas. Os maiores homens eram propensos a ela. Toda a América, no tempo em que foi descoberta, era povoada por homens desse gosto. Na Louisianna e no Illinois, homens vestidos de mulheres vendiam-se como putas, prostituíam-se como cortesãs; os negros de Benguela mantinham publicamente machos; quase todos os haréns da Argélia são hoje povoados por rapazes; em Tebas isso não somente era tolerado mas incentivado. O filosofo de Queonéa prescrevia-o para suavizar os costumes dos homens.

Sabemos que ele reinou em Roma: nos lugares públicos os rapazes se prostituíam vestidos de fêmea e as moças vestidas de rapaz. Martial, Catulo, Título, Horácio, Virgílio, escreviam a homens como se escreve a uma amante, e lemos em Plutarco¹ que as mulheres não devem receber nenhum amor dos machos. Os amasianos da Ilha de Creta reptavam rapazes com as mais estranhas cerimônias; quando amavam um rapaz, participavam aos pais o dia em que oraptariam, o rapaz resistia um pouco se o amante não lhe aprazia, caso contrário partia com ele e o sedutor o restituía à família, quando o tinha usado, pois nessa paixão (como nas mulheres) o interesse termina com a posse. Estrabão nos conta que nessa mesmo ilha os haréns se enchiam de homens que publicamente se prostituíam. 

Querem uma última autoridade para provar quanto esse vício é útil numa república? Escutemos Jerônimo, o Peripatético: "O amor dos rapazes expandiu-se por toda a Grécia, porque dava coragem e força e servia para expulsar os Tiranos. As conspirações se formavam entre os amantes e eles se deixariam antes torturar a revelar seus cúmplices". O patriotismo sacrificava, assim, tudo à prosperidade do Estado; era sabido que essas ligações consolidavam a república; declamava-se contra as mulheres; ligar-se a elas era considerada uma fraqueza própria do despotismo. 

A pederastia foi sempre o vício dos povos guerreiros: diz-nos César que os gauleses se entregavam largamente a ela. As guerras que as repúblicas tinham que enfrentar, levando à separação dos sexos, contribuíam para a difusão do vício. Quando se chegou a reconhecer seus efeitos úteis ao Estado, a religião o consagrou. Sabe-se que os romanos santificaram os amores de Júpiter e Ganimedes. 

Assegura-nos Sextus Empiricus que também os persas se davam a essa fantasia. Enfim, as mulheres, ciumentas e repudiadas, ofereceram-se para prestar aos maridos os mesmos serviços que os rapazes lhes prestavam. Alguns experimentaram e retomaram aos antigos hábitos, não achando possível deixá-los. 

Os turcas, fortemente inclinados a essa depravação, consagrada por Maomé no Alcorão, asseguram, entretanto, que uma virgem bem jovem pode perfeitamente substituir um rapaz e, raramente, entre eles, uma delas chega a idade adulta sem ter passado por essa prova. Sixto V e Sanches permitiram esse deboche; o último tentou mesmo provar que ele era útil à propagação e que uma criança engendrada depois dessa prática seria muito melhor constituída. 

Por fim, as mulheres vingaram-se amando-se entre si; essa fantasia, sem dúvida, não tem maiores inconvenientes do que a outra, pois o resultado é apenas a recusa de criar e os meios dos que tem a mania de procriar são tais que os adversários não causam mal algum. Os gregos apoiavam igualmente essa loucura por razões de Estado. Resultava disso que, bastando-se a si mesmas, suas comunicações com os homens eram menos freqüentes e elas não prejudicavam com isso os negócios da república. Luciano nos ensina o progresso que fez essa lubricidade e não é sem interesse que a observamos em Safo.

Não há um só perigo nessa mania, ainda que fossem mesmo mais longe; mesmo que se acariciem monstros ou animais, como nos demonstra o exemplo de muitos povos; nestas fantasias não há inconvenientes, pois a corrupção dos costumes, sempre útil ao governo, não poderia ser prejudicial sob nenhum aspecto. Nós devemos esperar de nossos legisladores bastante sabedoria, bastante prudência, de maneira a estarmos seguros de que nenhuma lei virá reprimir essas misérias, que, segundo a Constituição, não poderiam tomar culpado aquele que a elas se entregassem.

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