Casal Transexual: Não é filme de ficção; é vida real!



Para contar sua história, este casal fez uma exigência à reportagem do DIÁRIO: manter suas identidades em absoluto sigilo. O pedido fez todo o sentido. Daniel e Paula guardam um passado com contornos de ficção. Juntos há quase 15 anos, eles se apaixonaram em uma sessão de terapia em grupo que acontecia em um hospital público de São Paulo. Eram encontros recorrentes de pacientes diagnosticados com o chamado distúrbio de identidade de gênero. Em outras palavras, pessoas nascidas mulheres, mas com o forte desejo de se tornarem homens, e homens que queriam ser mulheres. Esse era o caso de Daniel e Paula. "Sempre tive uma aparência que não condizia com o meu nome de batismo, que era Sandra. Além disso, eu me sentia um homem em um corpo feminino", conta ele, que começou o processo para a mudança de sexo ainda em 1990, ano emque retirou as mamas. De lá para cá, Daniel, que é meio careca e usa barba e bigode, já passou por mais de 40 cirurgias - muitas delas não foram bem sucedidas. Por isso tem severas cicatrizes pelo corpo. Ele ainda precisa se submeter a uma pequena intervenção. "Tenho sofrido tudo isso em prol de uma solução para a vida." Paula, que nasceu Sergio, virou definitivamente mulher em 2000.



O casal Daniel e Paula



Daniel e Paula, ambos baianos, se conheceram em São Paulo, em 1997, quando ainda estavam no processo para a mudança definitiva de suas genitálias. "Paula era calada, nunca saía com ninguém. Ela contava seus dramas na terapia, mas não se relacionava com a gente", lembra Daniel. "Fiquei cismado e isso fez com que eu começasse a me aproximar dela." Paula não era moça fácil. Participava dos encontros relatando seu drama, mas sempre ia embora sozinha. Os convites dos colegas de análise para esticar a conversa nos arredores do hospital não a seduziam. "Ainda que todos nós estivéssemos no mesmo barco, me sentia como se não pertencesse a este mundo." Até hoje, ela mantém certa discrição. Mede as palavras antes de falar e não se entrega facilmente. É diferente de Daniel, que é falante, acolhedor.


Mas, de tanto ele insistir, um dia Paula cedeu e os dois saíram para conversar a sós. No primeiro encontro, só rolou papo. Alguns meses mais tarde, aconteceu o primeiro beijo. "Até que foi bom", ela diz, sem dar grandes detalhes. Os dois namoraram um tempo ("não muito") até decidirem morar juntos. "Nosso relacionamento era complicado. A gente ficava só no beijo e na social. Eu não deixava ele ver o meu corpo porque tinha muita vergonha."


Em 2000, Paula finalmente foi submetida à cirurgia de "adequação anatômica da genitália". Daniel está em processo porque, no passado, muitas intervenções foram mal sucedidas. Embora já tenha pênis, ele urina sentado. "A parte mais crítica da cirurgia é a construção da uretra", ele diz. "Mas isso vai melhorar daqui a alguns dias, quando eu fizer o último retoque para colocar o buraquinho por onde sai o xixi no lugar certo." Por causa disso, ele enfrenta situações delicadas ao precisar de banheiros públicos. "Em geral, fico apertado. Os banheiros masculinos não têm cabines individuais como os femininos. Não posso ir nem a um, nem a outro. É uma complicação."


De acordo com o relato do casal, a relação sexual deles é "quase normal". "Temos prazer sem penetração", diz ele. Apesar disso, Daniel se orgulha de sua nova forma física. Afirma que possuía um clítoris "avantajado", o que lhe proporcionou um órgão genital masculino considerável. Depois, ele exibe as cicatrizes que têm no abdômen e na coxa. "Não me importo com elas. Ao contrário, elas representam a minha liberdade."


Paula também não liga para as marcas no corpo do amado. Também não se importa com o fato de as transas não serem convencionais. "Um beijo e um carinho são capazes de me deixar satisfeita. O importante é que nos damos bem e agora somos muito, muito felizes."


Luta diária


Mas, até alcançarem essa plenitude, dizem ter percorrido um caminho longo e sofrido. "Eu cheguei a São Paulo em 1975. Sonhava com um emprego, uma vida decente. Mas não consegui trabalho por causa da minha aparência. Eu era um homem com nome de mulher." Sem dinheiro, sem casa e comida, Daniel viveu nas ruas do centro da cidade durante quase quatro anos. Fui mendigo."


Teve a sorte de ser amparado por uma japonesa, dona de uma loja na rua Mauá. Virou balconista. Quatro anos depois, ela mudou de país e o périplo de Daniel recomeçou. Mas conseguiu se empregar no setor de limpeza de um hospital particular. "Alguns colegas não me aceitaram e pediram minha cabeça. Só que a diretoria me protegeu." Daniel ficou 19 anos lá. "Eu sou um vitorioso."


Paula fica emocionada ao relembrar o passado e chora. "Sofri um conflito interno muito grande." Filha de pais protestantes, ex-estudante em uma escola de freiras, ela conta ter crescido sem saber quem era e, por isso, evitava as pessoas. "Não tive infância, adolescência, nada." Aos 28 anos, ainda na Bahia, ela conseguiu "burlar" sua certidão de nascimento. "Nasci nessa idade porque socialmente me tornei mulher." Em seguida, ela decidiu vir para São Paulo. Tinha uma carta nas mãos de um médico baiano, pedindo a um colega paulistano para atendê-la. Foi assim que Paula ingressou no tratamento para a cirurgia de adequação da genitália em um hospital público. O processo durou sete anos. Agora, com os sexos adequados, Daniel e Paula conseguiram também ter os documentos acertados. Ele é, de fato, Daniel e ela, Paula. Está escrito nas identidades.


Como marido e mulher, eles dividem um sobrado confortável de dois quartos e bem arrumado em um município de São Paulo, localizado em uma rua residencial com nome de pássaro. Daniel tem 51 anos e está aposentado. Por isso cuida da casa e dos dois cachorros pequenos que eles mantêm. Paula, 44 anos, é funcionária pública e estudante - ela faz faculdade em São Paulo. "Daqui para a frente, só penso em melhorar a minha vida", diz.


O casal não tem filhos e não sonha em aumentar a família. Eles parecem mesmo felizes. Mas Paula avisa: "Há muito pouca informação sobre a transexualidade e é um erro pensar que esse processo é simples, uma coisa banal. Não é. Até chegar onde chegamos, passamos por muito sofrimento, dor e angústia."


PAULA é funcionária pública.
DANIEL está aposentado.

Comentários

  1. como disse Lea T. é uma mutilação que vc faz com seu corpo não é uma coisa simples MESMO!

    beijos querido e você anda sumido do JeD! apareça por lá queridão, veja os videos dos indicados ao Oscar ou escute as músicas indicadas aqui: http://justoedigno.blogspot.com/2011/02/rumo-ao-oscar-melhor-cancao-original.html


    beijão

    ResponderExcluir
  2. Vou passar lá, sim. É a correria. Adoro visitar teu espaço.

    Beijo,
    Sergio Viula

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe suas impressões sobre este post aqui. Fique à vontade para dizer o que pensar. Todos os comentários serão lidos, respondidos e publicados, exceto quando estimularem preconceito ou fizerem pouco caso do sofrimento humano.