Nosso Lar: Revelação Espiritual????

Por Sergio Viula

Uma das perspectivas da cidade chamada 'Nosso Lar'. Spielberg imaginaria melhor...


Semana passada fui assistir o comentadíssimo filme Nosso Lar. Mais de 2 milhões de expectadores já assistiram o filme. O filme é baseado no livro 'psicografado' por Chico Xavier, supostamente sob a orientação espiritual do defunto André Luiz. O objetivo do tal espírito era revelar como é a vida depois da morte.

O filme começa com as chocantes cenas de sofrimento dos espíritos 'desencarnados' no umbral, um lugar semelhante ao purgatório católico, no qual os desencarnados se preparam para entrarem na cidade espiritual, onde tudo lembra o projeto do famoso arquiteto e ateu Oscar Niemeyer para Brasília. 

A cidade chamada 'Nosso Lar' tem esplanada dos ministérios e tudo: ministério da comunicação, ministério da reencarnação, etc. 

A cidade tem governador!!! Para os que pensavam que teriam descanso, uma má notícia: as pessoas têm que trabalhar para merecer fazer qualquer coisa na cidade. Puta que pariu! Nem morto, o desgraçado deixa de trabalhar e ter chefia em cima dele... E tem mais: se quiser mandar alguma mensagem para parentes ou amigos na terra, vai precisar acumular créditos (parece até o sistema de milhas dos cartões de crédito e das empresas aéreas). E esses créditos são acumulados através do trabalho, e quanto mais servil for o defunto trabalhador, melhor. Todavia, esse defunto vai precisar ter um médium preparado na terra para receber as tais mensagens.




O umbral que parece assustador no começo acaba parecendo um misto de Moulin Rouge e Thriller ;)


O defunto André Luiz tinha o Chico! Que conveniente!!! Depois de trabalhar muito para poder escrever bastante, o pobre coitado foi capaz de escrever um livro. E qual era o nome do livro?  Isso mesmo: Nosso Lar!!! Ou seja, André Luiz escreveu, Chico Xavier psicografou, e todo mundo ficou feliz. O André Luiz tornou o Chico mais crível para os crédulos e o Chico tornou o André Luiz mais famoso depois de morto do que quando era supostamente médico em sua assim chamada 'vida terrena'.

Além de todos os absurdos plagiados do catolicismo e de outras crenças (nada é realmente novo na doutrina espírita), o filme procura levar a audiência àquela postura de resignação diante da vida: Se você sofre, é porque escolheu sofrer. Tudo o que supostamente acontece em sua atual 'encarnação'  você escolheu passar antes de reencarnar, isto é, quando ainda estava naquele lugar que eles chamam de 'Nosso Lar'. 

É uma tentativa de dar propósito a tudo o que se passa na vida de um ser humano, por mais absurdo e detestável que seja. 

Muita gente, por causa disso, acaba se acomodando e ficando até grata aos seus algozes, como se cada chibatada da vida fosse uma 'bênção' com o propósito de levá-lo a um patamar mais elevado na dita evolução espiritual. Isso quer dizer, em última análise, que os negros da era das navegações portuguesas, espanholas, inglesas, francesas e holandesas escolheram ser escravizados; os judeus escolheram morrer nas câmaras de gás dos nazistas; as mulheres perseguidas e mortas pela igreja católica na Idade Média, e as mulheres perseguidas atualmente no mundo islâmico, escolheram esse sofrimento. E por aí vai... 

E não interessa se você aguarda o céu católico, o céu muçulmano, o nirvana budista, a união com os deuses hindus, ou qualquer outra forma de existência ou não-existência pós-vida, todos vão acabar no umbral e depois entrar no 'Nosso Lar'. O espiritismo é a verdade final e inevitável, de acordo com os próprios espíritas e seus defuntos falantes.

No livro e no filme, os tais espíritos do 'Nosso Lar' vivem criticando a ciência e o ceticismo. Colocam sempre o cientista e o cético como idiotas, mas os espíritas não poupam esforços para vincular o espiritismo à ciência, tentando dar ao espiritismo uma aura de credibilidade. Então, quem é que realmente tem credibilidade - o espiritismo ou a ciência que ele tanto critica, mas a quem recorre em busca de status? 

Não é a ciência que tenta se apresentar como digna de confiança com base no espiritismo, mas o espiritismo que tenta se apresentar como digno de confiança com base na ciência. Pegue qualquer jornal espírita e você vai encontrar essa relação em diversas matérias publicadas por eles.

O livro e o filme são, a meu ver, ridículos sob todos os pontos de vista, exceto- no caso do filme - pelos efeitos especiais, que são excelentes para um filme desse gênero. 

Tem muita gente interessada em tornar Chico Xavier numa espécie de 'padroeiro' do espiritismo brasileiro. Não faltam filmes recentes sobre ele e seus escritos. No entanto, Chico Xavier foi apenas mais um religioso descontente consigo mesmo e com a vida, que projetou a felicidade que ele mesmo não construiu aqui para mundos além. 

Toda pessoa que espera atingir a felicidade ou a perfeição (outro mito) em além-mundos é um pessimista no sentido mais estrito do termo, e só deixa de ser percebido como tal, porque utiliza como álibi deuses, espíritos, anjos, ou semelhantes. O espiritismo não é exceção, e  Chico Xavier apenas distribuiu tranquilizantes existenciais no formato das cartas que ele mesmo (quem pode provar???) alegava psicografar. 

Gente desesperada por acreditar aceita qualquer resposta que venha de encontro aos seus anseios. Eu, pessoalmente, prefiro o realismo nu da vida aos embustes de gente que se diz detentora de alguma revelação espiritual, mas que encontra-se, na verdade, muito mais assustada do que eu frente aos desafios da vida e à certeza da morte.

A vida é bela, mesmo sendo dura, e não adianta adiar a felicidade para pós-mundos, mundos-além. Quem não viver intensa e felizmente agora, jamais viverá de fato. E eu digo isso por não ter motivo algum para aceitar outra coisa além dessa. 

Nenhuma religião ou suposto representante de deus, deuses ou espíritos JAMAIS apresentou-me prova cabal da existência de além-mundos. A fé demonstrada por pessoas como as que eu vi chorar vendo um filme ou lendo um livro ridículo como 'Nosso Lar' não dá nem pra saída.

Escrito por Sergio Viula para o blog Fora do Armário 

Comentários

  1. Eu acho que o bom de ser ateu é poder ver filmes como Nosso Lar de forma crítica, sem se deixar contaminar pela religião. Aí a gente consegue ver os absurdos, tanto da doutrina quanto do filme. A história é ridícula, o diretor horroroso, todos os personagens falam num tom meio solene. E reparou que lá ninguém está a fim de explicar nada? É só aparecer alguma pergunta que logo dizem "um dia você vai ter todas as respostas".

    E pelo que entendi, você manda uma carta (tem até notebook lá) que tem que ser psicografada aqui. OK. O que ninguém explica é como que fazem pra entregar essa carta, se a pessoa que vai receber não for espírita e nem der as caras num centro espírita.

    Eu acho que super-estimam muito o Chico Xavier por não ter ficado rico com os livros que ele vendeu, preferindo ajudar os necessitados. Ora, só o que ele deve ter arrumado de adeptos para o espiritismo já valeu muito mais.

    O pai do meu namorado é espírita kardecista. E o namorado mesmo já me carregou para o centro espírita para tomar "passe" (aquele da sala escura com uma luz vermelha acesa e gente gesticulando na sua frente). Fui algumas vezes e parei. Hoje fico espantado como que podem acreditar em tanta bobagem.

    Forte abraço.

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  2. Que comentário fantástico, Fantôme!!! Vc arrasou em sua análise! O que muita gente não percebe é que dinheiro pode ser colocado em segundo plano quando o indivíduo tem reconhecimento e necessidades supridas. Por isso, tantos monges e tantas freiras. Por isso, tantos homens sagrados no hinduísmo que vivem quase sem nenhum recurso financeiro. Chico Xavier teve um mente brilhante para escrever tanto, muita criatividade e agilidade mesmo, mas colocou esse brilhantismo a serviço do dogma e do obscurantismo.

    Agora, uma coisa é certa: tem muita gente ficando rica com tudo isso: editores, produtores cinematográficos, produtores teatrais, etc. todos adoram o Chico, afinal quem não vai gostar da galinha dos ovos de ouro que o Chico veio a ser?

    Abração, garoto!
    Sergio Viula

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  3. Olha, querido, como eu costumo dizer, adoraria ser "mainstream" e acreditar num mundo melhor e mais feliz após a morte, onde eu irei rever todos os queridos que se foram. Mas não consigo acreditar nisso simplesmente porque é mais confortável pra mim. Ao contrário de muitas pessoas que eu conheço, eu não "preciso" acreditar (ouvi isso essa semana). Então, é isso aí. Tamos juntos! :)

    bjo

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    1. Você conseguiu dizer de forma bela e clara o que muita gente não tem coragem sequer de pensar.

      Obrigado, Déa.

      Beijo.
      Sergio Viula

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